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SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- XVIII Domingo
LEITURA I – Is 55,1-3 SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145) LEITURA II – Rom 8,35.37-39 EVANGELHO – Mt 14,13-21 «Quando recebeu a notícia (da execução de João Batista), Jesus se afastou de lá numa barca para um lugar isolado. Mas o povo, sabendo disso, deixou as cidades e o seguiu a pé. Deixando a barca, viu a grande multidão, ficou com muita pena dela e curou os seus enfermos. Caía a tarde, os discípulos chegaram perto Dele e disseram: “O lugar é afastado e já estamos passando da hora. Despede, então, o povo, para que possa ir aos povoados comprar alimento”. Mas Jesus respondeu: “Não precisa ir. Dai-lhe vós mesmos de comer”. Mas observaram eles: “Nós só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Ele disse: “Trazei-os aqui para mim”. E tendo mandado o povo se acomodar sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou seu olhar para o céu, e recitou a fórmula da benção. Em seguida, partiu os pães que deu aos discípulos, e eles os distribuíram ao povo. Todos comeram fartamente, e foram recolhidas as sobras: doze cestos bem cheios! Entretanto, os que tinham comido eram cerca de cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças» (Mt 14,13-21). O trecho do Evangelho narra um dos fatos que, com certeza, marcou profundamente a vida dos discípulos a ponto de ser narrado por todos os evangelistas. Em alguns casos é narrado duas vezes e de formas diferentes, com a finalidade de evidenciar, no mesmo episódio, os vários significados aos quais Jesus podia aludir, como, por exemplo, a sua revelação e a missão da Igreja. Notamos imediatamente uma impostação litúrgica: «Levantou os olhos, deu graças, partiu...». É um indício claro que, para os discípulos e para a Igreja primitiva, não se tratava de um dos tantos milagres que Jesus havia realizado durante sua vida. Após a morte e a Ressurreição do Senhor, a comunidade cristã estava vivendo a tensão entre dois sentimentos aparentemente contraditórios: a consciência de que Jesus estava vivo na Igreja e a experiência da sua ausência, ou seja, a impossibilidade de continuar um relacionamento como tinha sido até então. Desse modo a Igreja começou a querer “sentir” e “experimentar”, a presença do Senhor Ressuscitado de modos sempre mais profundos; entre esses primam três: a escuta da Palavra do Senhor, a experiência da mesma comunhão que tinham vivido enquanto Jesus estava na Palestina e, principalmente, o fato de reviver a “última ceia do Senhor”, a «fração do pão» (At 2,42; 20,7). O ambiente é descrito por Mateus como um “lugar isolado”, deserto. Há uma alusão ao caminho dos hebreus no deserto? Está se propondo uma referência implícita ao “maná”, o pão do deserto? É possível. Certo é que o fato narrado hoje se dá fora da jurisdição e da influência do judaísmo, do “outro lado” do mar da Galileia, terra de estrangeiros pouco ligados a tradições religiosas e rígidos preceitos. Não é sem intenção que a multiplicação dos pães se dê justamente nesse contexto: implicitamente essa tende a sugerir a nova maneira de entender a relação com Deus que Jesus estava propondo. O que Jesus está prestes a propor, com um gesto simbólico tão forte, é uma relação com Deus que não desconhece a anterior. O judaísmo pensava que o fiel chegasse a Deus seguindo integralmente determinadas leis, cultos, práticas religiosas, todavia Jesus oferece algo diferente. Foi bem isso que entenderam mais tarde os cristãos que, como nos dizem os Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo «frequentavam o Templo», mas «partiam o pão em suas casas» (At 2,46). O gesto de partir o pão se tornou bem cedo o sinal que caracterizava e identificava a comunidade cristã. O Evangelho nos dá a entender o contexto carregado de tristeza e o sofrimento de Jesus, não somente pela morte de João Batista, mas pela hipocrisia que reina no coração das pessoas que, como Herodes, querem manter a todo custo o poder e a própria imagem. Jesus, talvez, em tais circunstâncias, queria um momento “só para si”. É isso que todos nós fazemos quando os sofrimentos parecem ser mais fortes do que as nossas forças, quando algo nos atinge do modo tão pessoal e imediato. A compaixão não é um piedoso sentimento de benignidade que deixa uma distância entre quem é beneficiado e quem “concede” o benefício. Isso não é cristão! É um “sofrer-com-quem-sofre”, é a superação de um sentimento por um outro: o primeiro deixa quem sofre sozinho, o segundo o projeta na partilha de vida. Se esse trecho do Evangelho nos fala da Eucaristia, então significa que a Eucaristia não se reduz a um ato, mas é manifestação de uma atitude nova que começa com o sentimento de “compaixão” pelos menos favorecidos, por aqueles que, de algum modo, sofrem. Sabemos bem que a celebração da Eucaristia é e manifesta a presença viva e real de Cristo na sua comunidade, todavia essa presença pode ser percebida na compaixão, na fusão de sentimentos, na comunhão participativa. É essa compaixão de Jesus que questiona os discípulos e os faz distribuir aquilo que eles não têm. A compaixão dá início a todo um processo dentro da nossa alma. Embora com o coração abarrotado de sofrimento, Jesus dá o que às vezes as forças não têm para dar: «curou os doentes», foi ao encontro de todas as penas que as pessoas carregavam junto com aqueles doentes reunidos e confusos na multidão. O simples sentir-nos objeto da compaixão de Jesus, ver o seu olhar que compreende o que estamos vivendo, cura as feridas do abandono e da solidão nas quais o sofrimento nos encurrala. Jesus cura porque é disso que as pessoas sentem necessidade. Contudo, pela narração, parece que também isso seja insuficiente para a multidão. As pessoas permanecem ali, em volta de Jesus, não vão embora depois curadas, quase presas por um instintivo desejo de eternizar aqueles momentos que seriam únicos em suas vidas. Permanecer com Jesus, permanecer mesmo depois de termos recebido aquilo que queríamos, aquilo de que precisávamos como sinal de seu amor é um gesto fundamental para receber ainda mais, muito mais do que poderíamos imaginar. Receber e ir embora contentes não salva, não gera comunhão, não nos torna partícipes de valores muito maiores do que a cura, e que são sintetizados no gesto que virá em seguida: “a fração do pão”. Jesus também parece agradar-se com a presença daquela multidão. Não quer que aquele momento de graça seja interrompido, nem mesmo quando a necessidade imediata parece pressionar. A multidão está ali. Porém começam a surgir dificuldades, cansaço e fome, como na nossa vida de cada dia, quando o fascínio de sentir-se na presença de Jesus parece dar espaço à dureza do dia a dia que não tem muito de encantador. Que erro! É interessante: a exigência levantada não partiu da multidão, partiu dos discípulos. «Despede as multidões». É a solução mais óbvia, a melhor conforme aquele tipo de mentalidade materialista que domina o nosso pensamento. É melhor que toda essa gente não se iluda: “manda-os para casa”. Mas nem sempre a solução mais óbvia, o caminho mais fácil é o de Jesus. Para Jesus, aquela situação é a realidade! Estar com Ele, naquelas condições é o alimento daquelas almas insatisfeitas. Pessoas ligadas entre si pelo fato de sentirem-se todas necessitadas do Senhor, de carregar feridas e males, não se cansam de “estar diante do Senhor”. É nesse ponto que Jesus pede que os discípulos também façam o mesmo salto qualitativo que Ele: pede para que não olhem para aquilo que seus olhos estavam vendo ou achando ver; pede que não se fechem em suas convicções, mas que olhem para fora de suas sensações e dessem o que não tinham para dar. Pede que repitam em suas vidas aquilo que o Senhor fizera. Um pouco de pão, algum peixe, é aquilo que podemos ter à disposição. Pouco, a tal ponto de sentir a vergonha de oferecer, pensando até que nem valha a pena... E os discípulos escolheram seguir o Senhor e, como Jesus, deram o que não tinham para dar. Jesus responde, realiza o que não seria possível de outro modo. Jesus responde à insuficiência que experimentamos quando também sentimos compaixão. É aqui que a Eucaristia, o “partir o pão”, realiza aquilo que Jesus quer: que a sua multidão, frágil e faminta, continue ali, junto com Ele, num tempo sem horas, numa fome saciada continuamente, numa comunhão fortalecida pela confiança em seu providente amor. Deserto
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XVI DOMINGO TEMPO COMUM
LEITURA I – Sab 12,13.16-19 SALMO RESPONSORIAL – Salmo 85 (86) LEITURA II - Rom 8,26-27 EVANGELHO – Mt 13,24-43
A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum nos relembra o Jesus “Revelador” do Pai, que até então ninguém conhecia. Jesus revela Seu pai como um Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem não interessa a marginalização daquele que peca, mas resgatá-lo constantemente para a sua integração na comunidade do “Reino”. Jesus é mostrado neste trecho como o “grande catequista” que nos ensina a “lógica” de Deus, sinalizando a profunda diferença com a lógica dos homens. E para isso, a Igreja selecionou um belíssimo trecho do livro da Sabedoria que justamente fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e onipotência, é indulgente e misericordioso para com os homens, mesmo quando eles praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus mostra aos homens como é ser verdadeiro “homem”, ou seja a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus. A segunda leitura vem de encontro com essa idéia. Como o homem pode modificar sua forma de vida, sua personalidade e se tornar um verdadeiro homem, aos olhos de Deus? Paulo afirma que o Espírito Santo – dom de Deus – vem em auxílio dessa nossa fragilidade, guiando-nos nesse caminho. «Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’. O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!”’. Jesus contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos”. Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”. Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Abrirei a boca para falar em parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo”. Então Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!”. Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”» (Mt. 13,24-43). Este trecho do Evangelho faz parte das “parábolas do Reino”. Apresenta-nos três parábolas que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, o que é o “Reino”. Jesus pregava por “parábolas”, porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante. A“parábola” faz as pessoas pensarem e incita-as à procura da verdade. Por tudo isto, as “parábolas” são a linguagem utilizada por Jesus para apresentar o Reino: para incitar as pessoas a refletirem e a adotarem uma nova postura de vida. Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga coleção de “ditos” de Jesus, conhecida como “Evangelho de Tomé”). A primeira parábola é a parábola do trigo e do joio (24-30). Trata-se de um quadro da vida quotidiana: há um “senhor” que semeia boa semente no seu campo, um “inimigo” que semeia o joio. A plantinha que chamamos “joio” popularmente era chamada de “falso trigo”. Suas raízes se entrelaçam com as do trigo; a fisionomia da planta é tão semelhante à do trigo que se percebe a diferença somente quando a espiga já é desenvolvida. E mais, o grão produzido ainda pode ser confundido com o de trigo; a diferença se perceberá somente quando este grão será moído junto com o trigo, pois dará um sabor amargo à farinha. Mas os “servos” dedicados, preocupados com o futuro da colheita, fazem parte da normalidade de qualquer agricultura. Tudo parece normal; o anormal é a reação do “senhor” à “crise”: dá ordens para que deixem crescer trigo e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita a seleção do bom e do mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos celeiros. A parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou um publicano a integrar o seu grupo de discípulos… Com esse comportamento “escandaloso”, Ele quis dizer a todos esses que a religião oficial excluía, que Deus os amava e que os convidava a fazer parte da sua família, a integrar a comunidade da salvação, a serem membros de pleno direito da comunidade do “Reino”. O próprio fato que os operários foram questionar o dono sobre a presença do joio, diz algo importante para o nosso caminho de fé: o Reino já está presente, está crescendo e é facilmente reconhecível. É uma realidade já em ato. Se estamos percebendo o joio, o mal, é porque já estamos percebendo no campo de Deus também o trigo desenvolvido, mesmo que ainda não maduro!! O que chamamos “mal”, se considerado de um outro ponto de vista, nos dá a certeza de que a semente que sacia a fome do mundo já está plantada e está crescendo. A Escritura bem como a história de Israel e, até mesmo Jesus, não nos dão uma resposta sobre o que é o “bem e o mal”, nem sobre o por que. Contudo, a Escritura é muito clara quanto às conseqüências tanto do bem, quanto do mal. Os antigos escritores da Bíblia não se perguntavam sobre a essência do bem e do mal: para todos eles é muito claro que o mal, não tendo consistência em si mesmo, é vazio e apenas pode ser identificado como “tudo o que não vem do bem”, não vem de Deus. Não existe o mal, existe apenas o “não-bem”, assim como não existe na física, o frio. Existe apenas a falta de calor (o calor possui consistência própria e o frio não). A questão principal surge no momento em que os operários percebem que algo não está acontecendo como previsto ou imaginado. A salvação e o projeto de Deus não parecem acontecer através de procedimentos lógicos e compreensíveis. É tão fácil cair no engano de achar que o trabalho para o Reino tenha que correr como nós imaginamos, de acordo com as idéias que criamos dentro de nós e, ainda mais, pelos meios que “consideramos” certos! A parábola vem nos dizer que esta maneira de ver as coisas não coincide com a maneira de Deus agir. Nesta parábola, Jesus pretende dar-nos uma lição sobre a “lógica” de Deus. Sugere que a “lógica” de Deus não é uma “lógica” de destruição, de segregação, de exclusão, mas é uma “lógica” de amor, de misericórdia, de tolerância. O próprio fato que os operários foram questionar o dono, diz algo importante para o nosso caminho de fé: o Reino já está presente, está crescendo e é facilmente reconhecível. É uma realidade já em ato. Se estamos percebendo o joio, o mal, é porque já estamos percebendo no campo de Deus também o trigo desenvolvido, mesmo que ainda não maduro!! O que chamamos “mal”, se considerado de um outro ponto de vista, nos dá a certeza de que a semente que sacia a fome do mundo já está plantada e está crescendo. Os “servos” com excesso de zelo são os crentes (que trabalham no campo do “senhor”) rígidos e intolerantes, incapazes de olhar o mundo e o coração dos homens com a bondade, a serenidade e a paciência de Deus. O “campo” é o mundo e a história, onde coexistem o trigo (os sinais de esperança, de vida, de amor que tornam este mundo mais belo e mais feliz) e o joio (os sinais de morte, responsáveis pelo sofrimento, pela opressão, pela escravidão). É também o coração de cada homem e de cada mulher, capaz de opções de vida e capazes de opções de morte. O “falso trigo” nos reconduz àquela ilusão que é uma característica própria do “inimigo”: confundir o falso com o verdadeiro, esconder o falso usando o que é verdadeiro. O “mal” engana o homem e se manifesta sempre e se reconhece pela sua ambiguidade: é isto não pertence a Deus! A má semente se esconde, é verdade, mas se esconde até certo ponto após o qual é impossível ser confundida. Eis então, o bom operário, que sabe reconhecer onde está a verdade das coisas, que zela pela ceara do seu Senhor, que não quer deixar uma ponta de amargura no alimento destinado a saciar a fome das pessoas. A intenção de arrancar o joio é boa, nasce do zelo pelo senhor da messe; nesta altura porém, é fácil cometer um erro: pretender que o mundo seja dividido em bons e maus, em certo e errado, em “joio” e “trigo”...mas não é essa a vontade de Deus. Não convivem perfeitamente em nós a generosidade e o apego desnecessário? A doçura e a rigidez? A capacidade de compreender e a insensibilidade? E mais, não é um exagero pretender que o Reino de Deus se afirme com sinais puramente positivos e que o negativo seja tão somente um impedimento, um tropeço no percurso, um obstáculo que deve ser removido? Jesus seguirá outra lógica. A parábola nos coloca nesta “outra lógica”. Para o «dono» do campo, querer arrancar o “mal” do seu campo, é um ato insensato. Joio e trigo “devem” crescer juntos no campo e também na nossa vida, na nossa história, para que se afirme que Deus é realmente “soberano”, é Rei. Joio e trigo crescem paralelamente para que possam ser distinguidos. Quanto mais cresce o “mal” tanto mais cresce o “bem”. Eliminar um pode significar eliminar o outro. Afinal: quantas pessoas se encontraram com Deus depois de ter percorrido o caminho de mal? O «dono» tem consciência da presença do mal e de toda a sua abrangência; sabe que este se insinua até nas raízes do bem; mas Ele não deixa de apostar na sua semente e no seu campo: a força da sua palavra e o coração do homem. O Dono acredita que a colheita será superior ao dano provocado pelo joio. O dono acredita e sabe. O operário precisa aprender a acreditar e esperar, precisa aprender a não agir por medo, pois às vezes o que chamamos mal é até usado por Deus para fazer descobrir o valor do bem. Não foi assim para Madalena, para o ladrão, para Mateus o publicano...? Não é assim para nós mesmos que aprendemos profundamente o sentido do amor de Deus quando temos feito uma penosa experiência de desamor?
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14º Domingo do Tempo Comum 3 de julho de 2011 São Pedro e São Paulo Por: Sergio Alejandro Ribaric «Tendo chegado à região de Cesárea de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos: “Quem dizem por aí as pessoas que é o Filho do homem?”. Responderam: “Umas dizem que é João Batista: outras que é Elias; outras, enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então lhes perguntou: “E vós mesmos, quem dizeis que eu sou?”. Simão Pedro interveio e respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus retomou a palavra e disse: “És feliz, Simão Bar-jona, pois não foram a carne e o sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus! Pois, também eu vós digo: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças diabólicas não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do reino dos céus: Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.» (Mt 16,13-19) A festa de hoje nos reporta a unidade e a diversidade. Pedro e Paulo, dois dos mais importantes personagens do Evangelho, com duas histórias completamente diferentes. O encontro de Jesus com cada um deles foi diferente mas que terminaram do mesmo modo: em Roma dando suas vidas para quem lhes fez sentir seu amor. O que uniu pessoas tão distantes? O que lhes sugeriu as mesmas opções? Por que, pontos de vista tão desiguais não se transformaram em competição, como seria tão comum até nos dias de hoje? Pedro era cidadão da Galileia, região suspeita para o regime religioso e político da época. Seu tecido étnico era heterogêneo, com tendências separatistas. Pedro fazia parte desse povo, um cidadão comum, com sua família, sua estabilidade econômica, sua pequena vida de aldeia à margem do lago de Genesaré. Como muitos conterrâneos, provavelmente Pedro também seguiu Jesus vislumbrando nele o “esperado”, o líder que restauraria Israel. No coração do todo galileu estava a expectativa de ver em Jesus um libertador poderoso. Um dia, como sempre fazia, sem pedir permissão, Jesus começa a fazer parte da vida de um homem. Rompe os limites da vida de Pedro e o projeta num mundo infinitamente mais amplo do que os horizontes daquelas colinas. Os Evangelhos nos recordam a decisão que Pedro tomou e que o acompanharia o resto da vida. Decisão que voltou inúmeras vezes à sua mente tentando-o de largar tudo e voltar à vida de antes, ao seu barco. Alguns desses momentos dramáticos nos são lembrados pelo apóstolo João: «À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna» (Jo 6,68). Ao lado dele, Paulo, fariseu formado na melhor escola rabínica da época, a de Gamaliel, zeloso da Palavra de Jahvé, a “Lei” na qual tinha toda certeza de se encontrar com Deus. Homem erudito, que falava as línguas mais importantes da época e sentia-se à vontade com as culturas dominantes, seus costumes, poesias, técnicas de oratória, etc. Um personagem seguro do caminho que trilhava para se encontrar com seu Deus... até o dia em que Deus quis se encontrar com ele. Foi o dia em que algo começou a desestabilizar suas convicções; e certamente não foi só o episódio de Damasco, aliás esse foi somente a consequência de ter aprendido a conhecer a linguagem de Deus. Lucas, companheiro de Paulo em suas viagens, discretamente nos dá uma indicação daquilo que começou a fazer desmoronar suas certezas adquiridas: um homem que morre perdoando, da mesma maneira que aquele Jesus que havia aprendido a combater. «As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo» (At. 7,58) enquanto apedrejavam Estevão. A inversão de valores operada por Jesus no coração de Paulo o levará também a ultrapassar os limites de suas convicções. Daquele dia em diante seu coração aprendeu que a “lei”, a regra, o “mínimo suficiente” não salva ninguém. Ao contrário, Paulo é tão forte contra a mentalidade do “mínimo necessário”, que chega adjetivá-la de «maldita» (Gal 3,13) porque esta tem apenas o poder de indicar o certo e o errado, sem ter a capacidade de gerar nas pessoas aquilo que realmente salva, isto é, a gratuidade, o amor gratuito. Daquele dia em diante o intrépido e seguro fariseu descobriu-se como aquele que está no «último lugar» (1Cor 4,9), «indigno de ser chamado apóstolo» (1Cor 15,9). A presunção de se salvar com as próprias forças deu lugar àquele estado de ânimo que Paulo chamava «graça», isto é, a atitude de gratidão por ter sido objeto de um amor não merecido e, contemporaneamente, o desejo íntimo de responder à altura do dom recebido. A «graça», esta força movida pelo desejo de retribuir com amor ao amor, será a força desse grande homem de Deus. Daquele dia em diante, do dia em que Deus tocou de modo especial o seu coração ao ver Estevão morrer perdoando, como Jesus havia feito, a confiança em si mesmo será substituída pela humildade. A humildade com a qual um douto rabino, fariseu, formado na melhor escola de Jerusalém... pedia a opinião de Pedro, um pescador, “ignorante” (Lucas usa uma expressão que sugere que não soubesse ler e escrever: agrammatoi - At 4,13) antes de se aventurar na pregação do Evangelho. Ele precisa de Pedro a fim de não correr o risco de ter trabalhado «em vão» (Gal 2,2), isto é, por sua própria conta, sem a harmonia necessária ao anúncio do Evangelho, o qual, em última análise, deve estar ligado a Pedro por desejo de Jesus. Paulo aprendeu a gloriar-se de seus limites e de suas fraquezas para que fosse evidente a todos o tesouro que carregava em seu «vaso de barro». Eis quem era Paulo; um homem que se sentiu salvo, objeto da gratuita misericórdia de Deus e que quis entregar a sua vida a fim de que seus irmãos, judeus e estrangeiros, fizessem a mesma experiência de amor gratuito que ele havia feito. Amor que não pode ser alcançado pelas regras, pelas normas e leis, por mais justas que sejam. Dois homens, duas histórias, o mesmo fim. Ambos foram capazes de olhar o mundo com os olhos de Deus, capazes de esquecer as diferentes opiniões sobre um assunto ou outro (o livro de Atos nos narra alguns desses momentos e a dinâmica com a qual foram vividos) porque em ambos, Jesus ocupava o centro do coração. Ambos foram projetados fora do limite de seus exíguos mundos para serem parte de algo maior que desconheciam, mas que os fascinava. O fato de sentirem-se chamados e a humildade oriunda da consciência da vocação deram a ambos a força de perder o próprio “eu”, naquela belíssima experiência que Paulo assim descreve: «Não sou mais eu que vivo. É Cristo que vive em mim!» (Gal 2,20).
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13º Domingo do Tempo Comum 19 de Junho de 2011 SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
A Solenidade da Santíssima Trindade não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de “um Deus em três pessoas”; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade relacional e que criou os homens para os fazer participar desse mistério de amor. Na primeira leitura, o Deus da comunhão e da aliança, quer estabelecer laços com o homem, auto-apresenta-Se: Ele é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia. Esse texto faz parte das “tradições sobre a aliança do Sinai” – um conjunto de tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre um compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel teria assumido com Jahwéh. O texto situa-nos no deserto do Sinai, “em frente do monte” (cf. Ex 19,1). O nome “Sinai” não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilômetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho. A península é um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura. Precisamente aqui, o autor insere a teofania (“manifestação de Deus”). Deus aproxima-se de Moisés “na nuvem”: a nuvem, no Antigo Testamento, é um símbolo para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem; ao mesmo tempo a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha. Nesta apresentação, Deus não menciona a sua grandeza e onipotência, o seu poder e majestade; mas menciona “qualidades” inéditas dentre tantos deuses dos povos antigos: Jahwéh é o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade” (vers. 6). No vers. 7, Jahwéh fala ainda da sua misericórdia (“até à milésima geração”), que é ilimitada e desproporcional quando comparada com a sua ira (“até à terceira e à quarta geração”). Aqui, os números não significam nada e não devem ser tomados à letra: são apenas uma forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus, infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. Na segunda leitura, Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (que criticava alguns membros da comunidade por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos) provocou uma reação extremada e uma campanha organizada no para desacreditar Paulo. Este, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação. Paulo, entretanto, partiu para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o probelma fora superado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo. Reconfortado, escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Estamos nos anos 56/57. O texto que nos é proposto é, precisamente, a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1 Cor 16,19-24), ela surpreende-nos pela brevidade, frieza e impessoalidade. Não parece a despedida de uma “carta de reconciliação”, mas antes uma despedida entre partes que conservam uma certa tensão na sua relação. Paulo começa por deixar algumas recomendações de carácter geral aos membros da comunidade. Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto das dificuldades e tensões vividas recentemente pela comunidade.
Esta fórmula constitui uma impressionante confissão de fé no Deus trino. Ela manifesta a fé dos crentes nesse Deus que é amor e, portanto, que é “família”, que é comunidade. Ao utilizarem esta fórmula, os crentes reconhecem-se como membros dessa “família de Deus”; e reconhecem também que ser “família de Deus” é fazerem todos parte de uma única família de irmãos. «Deus amou tanto o mundo, que deu Seu Filho Único, para que todo que o crer nele não morra, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não mandou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado, quem não crê já está julgado, porque não acreditou no Nome do Filho Único de Deus» (Jo 3,16-18). Neste trecho do Evangelho, João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho único e amado), demonstra-se a grandeza do coração de Deus. Mais concretamente, o trecho que nos é proposto faz parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado Nicodemos (cf. Jo 3,1). Nicodemos foi visitar Jesus “de noite” (cf. Jo 3,2), o que parece indicar que não se queria comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica. Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus (cf. Jo 7,48-52); também estará presente na altura em que Jesus foi descido da cruz e colocado no túmulo (cf. Jo 19,39). A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases. Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai. Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”. Na terceira (cf. Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus. Desta maneira, Jesus explica a Nicodemos que o Messias tem de “ser levantado ao alto”, como “Moisés levantou a serpente” no deserto (a referência evoca o episódio da caminhada pelo deserto em que os hebreus, mordidos pelas serpentes, olhavam uma serpente de bronze levantada num estandarte por Moisés e se curavam – cf. Nm 21,8-9), a fim de que “todo aquele que n’Ele acredita tenha vida definitiva” (Jo 3,14-15), Jesus explica como é que a cruz se insere no projeto de Deus. A explicação vem em três passos… O segundo (vers. 17) deixa claro que a intenção de Deus, ao enviar ao mundo o seu Filho único, não era uma intenção negativa. Jesus veio ao mundo porque o Pai ama os homens e quer salvá-los. O Messias não veio com uma missão judicial, nem veio excluir ninguém da salvação. Pelo contrário, Ele veio oferecer aos homens – a todos os homens – a vida definitiva, ensinando-os a amar sem medida e dando-lhes o Espírito que os transforma em Homens Novos. Portanto, Deus não enviou o seu Filho único ao encontro de homens perfeitos e santos; mas enviou o seu Filho único ao encontro de homens pecadores, egoístas, auto-suficientes, a fim de lhes apresentar uma nova proposta de vida… E foi o amor de Jesus – bem como o Espírito que Jesus deixou – que transformou esses homens egoístas, orgulhosos, auto-suficientes e os inseriu numa dinâmica de vida nova e plena.
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