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Criamos
este espaço, a partir de setembro de 2009, para tratar de temas atuais,
inquietantes, que permeiam o nosso cotidiano, e que também são objeto
da Teologia.
Os responsáveis por este link são os Teólogos Sérgio Alejandro Ribaric e diácono Mario Angelo Braggio.
14/02 – VI Domingo do Tempo Comum: AS BEM-AVENTURANÇAS – Por Sérgio Alejandro Ribaric
21/02 – I Domingo da Quaresma: JESUS É TENTADO NO DESERTO – Por Sérgio Alejandro Ribaric
28/02 – II Domingo da Quaresma: TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR – Por Sérgio Alejandro Ribaric
14/03 – IV Domingo da Quaresma – PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO – Por Sérgio Alejandro Ribaric
21/03 – V Domingo da Quaresma – JESUS NÃO VEIO PARA CONDENAR – Por Sérgio Alejandro Ribaric
28/03 – DOMINGO DE RAMOS – Leituras, Salmo e Evangelho (A Instituição da Eucaristia) – Por Sérgio Alejandro Ribaric
04/04 – Domingo de Páscoa – JESUS NÃO ESTÁ MORTO
2º DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Por Sérgio Alejandro Ribaric
3º DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Por Sérgio Alejandro Ribaric
4º DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Por Sérgio Alejandro Ribaric
5º DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Por Sérgio Alejandro Ribaric
6º DOMINGO DO TEMPO PASCAL – Por Sérgio Alejandro Ribaric
Domingo de Pentecostes – Por Sérgio Alejandro Ribaric
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Por Sérgio Alejandro Ribaric
10º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Por Sérgio Alejandro Ribaric
SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR – Por Sérgio Alejandro Ribaric
11º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Por Sérgio Alejandro Ribaric
12º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Por Sérgio Alejandro Ribaric
13º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Por Sérgio Alejandro Ribaric
SÃO PEDRO E SÃO PAULO – Por Sérgio Alejandro Ribaric
XVII DOMINGO - Por Sérgio Alejandro Ribaric
XVIII DOMINGO - Por Sérgio Alejandro Ribaric
XIX DOMINGO - Por Sérgio Alejandro Ribaric
SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA - Por Sérgio Alejandro Ribaric
21º DOMINGO DO TEMPO COMUM - Por Sérgio Alejandro Ribaric
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM - Por Sérgio Alejandro Ribaric
2º DOMINGO DO TEMPO PASCAL
LEITURA I – Atos 5,12-16
LEITURA II – Ap 1,9-11a.12-13.17-19
EVANGELHO – Jo 20,19-31
Leitura dos Atos dos Apóstolos
“Pelas mãos dos Apóstolos realizavam-se muitos milagres e prodígios entre o povo.
Unidos pelos mesmos sentimentos, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão;
nenhum dos outros se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo
enaltecia-os. Cada vez mais gente aderia ao Senhor pela fé, uma
multidão de homens e mulheres, de tal maneira que traziam os doentes
para as ruas e colocavam-nos em enxergas e em catres, para que, à
passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém, a multidão
também acorria, trazendo enfermos e atormentados por espíritos impuros
e todos eram curados”.
O
livro dos Atos dos Apóstolos apresenta o “caminho” que a Igreja de
Jesus percorreu, desde Jerusalém até Roma, o coração do império. No
entanto, foi de Jerusalém, o lugar onde tudo começou. E foi aí que
nasceu a primeira comunidade cristã que se assumiu como testemunha de
Jesus diante do mundo.
O texto desta semana é um dos três sumários que aparecem na primeira parte do livro dos “ATOS”:
- Tema da unidade do impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade;
- Tema da partilha dos bens;
- Tema da primeira leitura de hoje, apresenta o testemunho da Igreja através dos milagres dos apóstolos.
Ao
narrar que “pelas mãos dos apóstolos realizavam-se muitos
milagres e prodígios entre o povo”, Lucas vê uma continuidade entre a
missão de Jesus e a missão da comunidade cristã. Importante a citação
que esses milagres ocorriam na “sombra” de Pedro (cf. At 5,15b), porque
isso nunca foi dito acerca de Cristo… Significa que Pedro tinha mais
poder do que Cristo? Obviamente que não. Não podemos nos esquecer que
Pedro era a figura da Igreja nascente. É o “chefe” da Igreja designado
pelo próprio Jesus Cristo. Milagres, sinais e prodígios “a sombra de
Pedro” significa que nenhum poder vem de Deus que não passe pela sua
Igreja como comunidade cristã de encontro com Jesus ressuscitado.
Leitura do Livro do Apocalipse (Ap 1,9-11a.12-13.17-19)
Estamos
nos finais do reinado de Domiciano (à volta do ano 95); os cristãos
eram perseguidos de forma violenta e organizada e parecia que todos os
poderes do mundo se voltavam contra os seguidores de Cristo. Muitos
cristãos, cheios de medo, abandonavam o Evangelho e passavam para o
lado do império. É neste contexto de perseguição, de medo e de martírio
que vai ser escrito o livro do Apocalipse.
O texto da primeira leitura de hoje pertence à primeira parte do livro.
Nele, apresenta-se – o “Filho do Homem” recorrendo a símbolos herdados
do mundo vétero-testamentário que sublinham, antes de mais, a divindade
de Jesus.: É Ele o Senhor da história e Aquele através de quem Deus
revela aos homens o seu projeto.
O autor do Apocalipse, um tal João, exilado na ilha de Patmos, depois de perseguido por causa do Evangelho,
Fala do“Filho do Homem” como o Senhor que preside à sua Igreja. Alguns elementos importantes:
- NO vers. 12, os sete candelabros representam a totalidade da Igreja de Jesus;
- Recordar
que o sete é o número que indica plenitude, totalidade... e que caminha
no meio dela e com ela (vers. 13a);
- Ele
está revestido de dignidade sacerdotal (a longa túnica, distintivo da
dignidade sacerdotal revela que Ele é, agora, o verdadeiro
intermediário entre Deus e os homens – vers. 13b)
- Possui
dignidade real (o cinto de ouro, porque n’Ele reside a realeza e a
autoridade sobre a história, o mundo e a Igreja – vers. 13c).
- Ele
é o Cristo do mistério pascal: esteve morto, voltou à vida e é agora o
Senhor da vida que derrotou a morte (vers. 18).
- A história começa e acaba n’Ele (vers. 17b). Por isso, os cristãos nada terão a temer.
EVANGELHO – Jo 20,19-31
Na
tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da
casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio
Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios
de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito
isto, soprou sobre eles e disse-lhes:«Recebei o Espírito Santo:àqueles
a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados;e àqueles a quem os
retiverdes serão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,não estava
com eles quando veio Jesus.
Disseram-lhe os
outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não
vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos
cravos e a mão na seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam
os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as
portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja
convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas
mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo,
mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!»
Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam
sem terem visto».
Muitos outros
milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão
escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes
que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando,
tenhais a vida em seu nome.
A
indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” faz, outra vez,
referência ao tempo novo, a esse tempo que se segue à
morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação.
A
comunidade está reunida no cenáculo, em Jerusalém. Está desamparada e
insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do fato da
perseguição dos romanos e judeus. Mas sobretudo de não terem, ainda,
feito a experiência de Cristo ressuscitado.
O texto divide-se em duas partes bem distintas.
Na
primeira parte (cf. Jo 20,19-23), descreve-se uma “aparição” de Jesus
aos discípulos que estão numa situação de insegurança e fragilidade que
dominava a comunidade (vejam o uso das palavras: “anoitecer”, “as
portas fechadas”, o “medo”). Ao aparecer “no meio deles”, Jesus
assume-Se como ponto de referência, fator de unidade... transmite
duplamente a paz. Em seguida Jesus revela a sua “identidade”: nas mãos
e no lado trespassado. É nesses sinais de amor e doação que a
comunidade reconhece Jesus presente no seu meio.
Jesus
“soprou sobre eles”. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de
Gn 2,7 , no qual se diz que Deus soprou sobre o homem de argila,
infundindo-lhe a vida de Deus. Com o “sopro” inicial o homem tornou-se
um ser vivente; com este “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida
nova que lhes permitirá dar-se generosamente aos outros. As palavras de
Jesus à comunidade contêm ainda uma referência à missão (vers. 23). Os
discípulos são enviados a prolongar a missão de Jesus que Pai Lhe
confiou.
Na segunda parte apresenta-se uma catequese
sobre a fé. Como é que se chega à fé em Cristo ressuscitado? João
responde: podemos fazer a experiência da fé em Jesus vivo e
ressuscitado na comunidade, que é o lugar natural onde se manifesta e
irradia o amor de Jesus. Tomé acaba por fazer a experiência de Cristo
vivo no interior da comunidade. Porque, no “dia do Senhor” acontece uma
alusão clara ao domingo, ao dia em que a comunidade é convocada para
celebrar a Eucaristia: é no encontro com o amor fraterno, com o perdão
dos irmãos, com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado,
que se descobre Jesus ressuscitado.
A incredulidade de
Tomé é totalmente perdoada por Jesus pela sua profissão de Fé que ele
faz em seguida. Profissão que a Igreja adota até os dias de hoje: «Meu Senhor e meu Deus!»
3º DOMINGO DO TEMPO PASCAL
LEITURA I – Atos 5,27b-32.40b-41
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 29 (30)
LEITURA II – Ap 5,11-14
EVANGELHO – Jo 21,1-19
«Depois
disso, Jesus se manifestou de novo aos discípulos, à beira do mar de
Tiberíades. A manifestação foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé,
chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu e
outros dois discípulos de Jesus. Simão Pedro disse a eles: “Eu vou
pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”. Saíram e entraram na
barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e
Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era
Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para acompanhar o
pão?” Responderam: “Não”. Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da
barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para
fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem
Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que
era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os
outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes.
Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem
metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em
cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que
apanhastes”. Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a
terra. Estava cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes; e
apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu. Jesus disse-lhes: “Vinde
comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois
sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o
por eles. E fez a mesma coisa com o peixe. Esta foi a terceira vez que
Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Depois de
comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me
amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu
te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a
Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor,
tu sabes que eu te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas
ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João,
tu me amas?” Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se
ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te
amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em
verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias e ias para onde querias.
Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará
para onde não queres ir”. Jesus disse isso, significando com que morte
Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.» (Jo. 21,1-19)
O tema central desta semana gira em torno do
confronto entre o cristianismo nascente e as autoridades judaicas. A
frase de Pedro “deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens” (vers.
29) nos coloca imediatamente nessa centralidade do tema. Este contexto
também acentua a responsabilidade do Sinédrio no escândalo da Cruz.
A segunda leitura, extraída do Livro do Apocalipse
(cap. 4-22) é uma leitura profética da história: os cristãos
perseguidos pelo império não devem temer nada, pois a vitória final
será de Deus e dos que se mantiverem fiéis aos projetos de Deus.
Convém focar nosso tema no símbolo do cordeiro.
Esse símbolo tem uma grande densidade teológica, pois concentra e evoca
três figuras: a do “servo de Jahwéh” ,manso cordeiro levado ao
matadouro (Is 53,6-7; cf. Jr 11,19; At 8,26-38); a do “cordeiro pascal”
– relembrando o sangue que foi sinal eficaz de vitória sobre a
escravidão no Egito (Ex 12,12-13.27;24,8; cf. Jo 1,29; 1 Cor 5,7; 1 Pe
1,18-19); e a do “cordeiro apocalíptico” ,vencedor da morte. O livro do
Apocalipse apresenta, portanto, de uma maneira original e sintética, a
plenitude do mistério de imolação, de libertação e de vitória, que
corresponde a Cristo morto, ressuscitado e glorificado.
EVANGELHO
No Evangelho de João, o trecho que nos é proposto
não faz parte da obra original (a obra original terminava em 20,30-31),
mas é um texto acrescentado posteriormente, provavelmente por
discípulos de João, mais preocupados com a parte meditativa do que
narrativa. O primeiro encontro dos apóstolos com o
Ressuscitado, em Jerusalém, se deu em lugar fechado. Símbolo de uma
comunidade atemorizada e fragilizada pelo medo do mundo exterior. Mas
este encontro com Jesus se dá em lugar aberto, no mundo que já era
familiar aos Apóstolos: Pedro e ou outros tinham voltado ao seu lugar
de origem, a Galiléia.
O texto está claramente dividido em duas partes:
A primeira parte (vers.1-14) é uma parábola sobre a
missão da comunidade. Esta comunidade é apresentada no ato de pescar:
sob a imagem da pesca, os evangelhos sinópticos representam a missão.
Devemos lembrar que muitos deles foram chamados por Jesus enquanto
pescavam. A pesca representa a missão da Igreja de Jesus: libertar
todos os homens que vivem mergulhados no sofrimento e na escravidão.
Pedro toma a iniciativa; os outros seguem-no incondicionalmente. Aqui é
clara a referência ao lugar proeminente que Pedro ocupava na animação
da Igreja primitiva.
A pesca é feita durante a noite. A noite é o tempo
das trevas, da escuridão, do medo: significa a ausência de Jesus (“Eu
sou a luz do mundo” – Jo 9,5). O resultado da pesca dos discípulos (de
noite, sem Jesus) é um fracasso total. Como não lembrar da frase do
próprio Jesus: “sem Mim, nada podeis fazer” – Jo 15,5. A chegada
da manhã (luz) coincide com a presença de Jesus (luz do mundo).
Concentrados no seu esforço inútil, os discípulos não reconhecem Jesus.
Jesus dá-lhes indicações e as redes enchem-se de peixes: o fruto
deve-se à docilidade com que os discípulos seguem as indicações de
Jesus. Clara a idéia que o êxito da missão não se deve ao esforço
humano, mas sim à presença viva e à Palavra do Senhor ressuscitado.
Diferentemente da narração de outras aparições de
Jesus, desta vez o Autor não usa o termo “aparição”, mas no texto em
grego usa a palavra “manifestação”. Isso muda tudo! a aparição é algo
que vem de fora. A manifestação é o evidenciar de algo que já existe.
Essa é a profunda realidade que dá identidade à Igreja: nós somos o
lugar onde, em qualquer momento e circunstância, o Ressuscitado escolhe
para estar presente. É nisto que consiste a maravilha que, mais
tarde, Paulo chamará «mistério da nossa fé: Cristo em nós» (Col. 1,27).
A mensagem fundamental que brota deste texto é a
centralidade de Jesus, vivo e ressuscitado, na missão que nos foi
confiada. Podemos esforçar-nos imenso e dedicar todas as horas do dia
ao esforço de mudar o mundo; mas se Cristo não estiver presente, se não
escutarmos a sua voz, se não ouvirmos as suas propostas, se não
estivermos atentos à Palavra que Ele continuamente nos dirige, os
nossos esforços não terão qualquer êxito. O êxito da missão cristã não
depende do esforço humano, mas da presença viva do Senhor Jesus.
E a pergunta de Jesus a Pedro é a pergunta que Jesus repete ao homem a cada dia: Tu me amas?”
4º DOMINGO DO TEMPO PASCAL
LEITURA I – At 13,14.43-52
LEITURA II – Ap 7,9.14b-17
EVANGELHO – Jo 10,27-30
«As minhas
ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu
dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai
arrancá-las de minha mão. Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior
que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos
um”». (Jo 10,27-30)
A primeira leitura, Atos capítulo 13
apresentam os primeiros passos, o “caminho” da Igreja no mundo
greco-romano. O trecho narra a comunidade cristã de Antioquia (Síria),
ansiosa por anunciar a Boa Nova de Jesus, envia Barnabé e Paulo a
evangelizar em Chipre e na Ásia Menor (Perga, Antioquia da
Pisídia, Icónio, Listra, Derbe). Ao chegarem em Antioquia Paulo faz um
longo discurso, que resume a catequese primitiva sobre Jesus e o plano
de Deus cuja proposta de salvação Jesus veio trazer (cf. At 13,16-41).
O texto põe em confronto duas
atitudes diversas diante da proposta cristã: a daqueles que pensavam
ter o monopólio de Deus e da verdade, mas que estavam instalados nas
suas certezas, no seu orgulho, na sua auto-suficiência, nas suas leis
definidas e não estavam dispostos a “embarcar” na aventura do
seguimento de Cristo (judeus); e a daqueles que, ao ouvirem o
Evangelho, descobriram a vida verdadeira, aceitaram questionar-se,
quiseram arriscar e responderam com alegria e entusiasmo à proposta que
Deus lhes faz. A Boa Nova de Jesus é, portanto, uma proposta universal,
que se destina a todos os homens, sem exceção.
A segunda leitura nos remete a um
trecho do Apocalipse. Igualmente a semana passada que apresentava-nos
“o cordeiro” (Jesus), o Senhor da história, que Se preparava para abrir
e ler o livro dos sete selos – o livro onde, simbolicamente, estava
escrita a história humana. A abertura dos selos desse livro vai expor a
realidade do mundo: na caminhada histórica dos homens, está presente
Cristo vitorioso continuamente em combate contra tudo o que escraviza e
destrói o homem (1º selo – o cavaleiro branco); mas está também
presente a guerra e o sangue (2º selo – o cavaleiro vermelho), a fome e
a miséria (3º selo – o cavaleiro negro), a morte, a doença, a
decomposição (4º selo – o cavaleiro esverdeado). No fundo deste quadro,
jazem os mártires que sofrem perseguições por causa da sua fé e que,
dia a dia, clamam a Deus por justiça (5º selo); por isso, prepara-se o
“grande dia da ira”, que anuncia a intervenção de Deus na história para
destruir o mal (6º selo). A revelação final apresenta o combate
definitivo, em que as forças de Deus derrotarão as forças do mal (7º
selo).
O texto de hoje situa-nos no contexto
do 6º selo (o anúncio do “dia do Senhor”). Aos mártires que clamam por
justiça, o autor do “Apocalipse” descreve o que vai resultar da
intervenção de Deus: a libertação definitiva, a vida em plenitude.
O Evangelho deste 4º Domingo do Tempo
Pascal é considerado o “Domingo do Bom Pastor”. A imagem do Bom Pastor
não foi inventada pelo autor do 4º Evangelho. Em alguns momentos do
Antigo Testamento encontramos essa alusão. Em Ez 34 onde se encontra a
chave para compreender a metáfora do pastor e do rebanho. Falando aos
exilados na Babilônia, Ezequiel constata que os líderes de Israel
foram, ao longo da história, falsos pastores que conduziram o Povo por
caminhos de morte e de desgraça; mas – diz Ezequiel – o próprio Deus
vai, agora, assumir a condução do seu Povo; Ele porá à frente do seu
Povo um Bom Pastor (Messias), que o livrará da escravidão e o conduzirá
à vida.
Talvez seja por isto que a liturgia
nos ofereça para a reflexão a figura do Bom Pastor. “Bom” aqui não
indica uma qualidade moral, não é sinônimo de “bondoso”. Mas o sentido
que Jesus deu a expressão “Bom” é diferente. Sabemos que esta era a
maneira de indicar o próprio Deus. “Bom só existe um” disse
um dia Jesus a um homem (Mt. 19,17); Assim Jesus aplica a si mesmo o
nome dado a Jahvé e também indica a sua missão e a missão de todo
pastor que tenha direito a este nome. Esse homem que abraça a missão
que lhe é confiada é um homem novo, um pastor autêntico que
conduz um rebanho que lhe pertence. A palavra “pertencer” não é
sinônimo de “possuir”. A missão desse Pastor (Cristo) é dar vida às
ovelhas. As ovelhas (os discípulos), por sua vez, têm de escutar a voz
do Pastor e segui-l’O (cf. Jo 10,27). Isto significa que fazer parte do
rebanho de Jesus é aderir a Ele, escutar as suas propostas,
comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida
de amor e de doação ao Pai e aos homens.
«As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem»;
é uma questão de entrega confiante! Se trata do intuito da pessoa
simples que “sente” onde está a verdade, mesmo que não consiga entender
o que gostaria entender. Esta é a fisionomia do rebanho que se associa
a Jesus, uma característica incompreensível aos padrões comuns que
norteiam os homens quando fazem suas escolhas. Deste modo, o
«escutar» ao qual se refere Jesus, indicando o seu rebanho, é mais do
que um ouvir a voz, é envolver-se com ela, acreditando que as garantias
para o futuro são fruto da sua fé.

As ovelhas que escutam ficam sempre de
prontidão, em atitude de confiança e paciente espera. Essa imagem
tornou-se própria da dimensão de vida cristã desde os primeiros
séculos. Inclusive na característica própria de sepultar os primeiros
cristãos. Enquanto, por exemplo, os muçulmanos são sepultados deitados
em direção do oriente, os hebreus em direção Norte (segundo os
profetas, o Messias viria do Norte), os primeiros cristãos sempre foram
sepultados em posição de prontidão, olhando para o céu, como prontos
para levantar a qualquer momento. Nos mais antigos túmulos encontrados
pela arqueologia, o cristão encontrava-se deitado, como se estivesse
dormindo, mas com o olhar apontando como quando se parte para uma
viagem. Acima do lugar onde o defunto era deitado, era costume
construir um arco que lembrava a abóboda celeste. Esta imagem se
encontra nas catacumbas de Santa Priscila em Roma, é um afresco que
retrata o Pastor verdadeiro, o Pastor que finalmente encontra a sua
ovelha perdida. Como a chamar aquele homem que estava dormindo: “vem,
segue-me!”.
5º DOMINGO DO TEMPO PASCAL
LEITURA I – Atos 14,21b-27
LEITURA II – Ap 21,1-5ª
EVANGELHO – Jo 13,31-33a.34-35
«Depois
que (Judas) saiu, disse Jesus: “Agora foi glorificado o Filho do Homem,
e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus
o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. Filhinhos, por pouco
tempo estou ainda convosco. Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns
aos outros. Como eu vos amei, assim também amai-vos uns aos outros.
Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns
aos outros
O tema da liturgia deste
domingo é o amor. A imagem é a da despedida de Jesus que vai ao
encontro do Pai e acontece durante a Última Ceia.
Na semana passada, a
narrativa nos mostrava o entusiasmo missionário da comunidade cristã de
Antioquia da Síria que lançou Paulo e Barnabé para a missão e como a
Boa Nova de Jesus alcançou, assim, a ilha de Chipre e as costas da Ásia
Menor…
Estes sucessos desenrolam-se entre os anos 46 e 49.
No texto que nos é
proposto esta semana na primeira leitura, transparecem os traços
fundamentais dos primeiros cristãos: o entusiasmo dos primeiros
missionários, que permite afrontar e vencer os perigos ; as palavras de
consolação que fortalecem a fé e ajudam a enfrentar as perseguições
(vers. 22a); o apoio mútuo (vers. 23b); a oração (vers. 23b.c).
Sobretudo, este texto acentua a idéia de que a missão não foi uma obra
puramente humana, mas foi uma obra de Deus. No início da aventura
missionária já se havia sugerido que o envio de Paulo e Barnabé não era
apenas iniciativa da Igreja de Antioquia, mas uma ação do Espírito (cf.
At 13,2-3); foi esse mesmo Espírito que acompanhou e guiou os
missionários a cada passo da sua viagem. E aqui repete-se que o
autêntico ator da conversão dos pagãos é Deus e não os homens (cf.
vers. 27).
O texto nos mostra como a
organização da Igreja começa a surgir. São instituídos os “anciãos” –
em grego, “presbíteros”. Correspondem, provavelmente, aos “conselhos de
anciãos” que estavam à frente das comunidades judaicas. Os “Atos” não
explicitam as funções exatas destes dirigentes e animadores das
Igrejas; mas o discurso de despedida que Paulo faz aos anciãos de Éfeso
parece confiar-lhes o cuidado de administrarem, de vigiarem e de
defenderem a comunidade face aos perigos internos e externos (cf. At
20,28-31).
Na Segunda leitura, do
Apocalipse, Depois de descrever o confronto entre Deus e as forças do
mal e a vitória final de Deus, o autor do “Apocalipse” apresenta o
ponto de chegada da história humana: a “nova terra e o novo céu”; aí,
os que se mantiveram fiéis ao “cordeiro” (Jesus) encontrarão a vida em
plenitude. É o culminar da caminhada da humanidade, a meta última da
nossa história. Esse mundo novo é, simbolicamente, apresentado em
dois quadros (cf. Ap 21,1-8 e 21,9-22,5). A leitura que hoje nos é
proposta apresenta-nos o primeiro desses quadros (o outro ficará para o
próximo domingo). É o quadro do novo céu e da nova terra – um quadro
que apresenta a última fase da obra regeneradora de Deus e que aparece
já em Is 65,17 e em 66,22.
Neste primeiro quadro, o profeta João chama a essa nova realidade
nascida da vitória de Deus a “Jerusalém que desce do céu”. Jerusalém é,
no universo religioso e cultural do povo bíblico, a cidade santa por
excelência, o lugar onde Deus reside, o espaço onde vai irromper e onde
se manifestará em definitivo a salvação de Deus. A “nova Jerusalém” é,
portanto, o lugar da salvação definitiva, o lugar do encontro
definitivo entre Deus e o seu Povo.
No contexto da teologia do Livro do Apocalipse, esta cidade nova, onde
encontra guarida o Povo vitorioso dos “santos”, designa a Igreja, vista
como comunidade escatológica, transformada e renovada pela ação
salvadora e libertadora de Deus na história. Dizer que ela “desce do
céu” significa dizer que se trata de uma realidade que vem de Deus e
tem origem divina; ela é uma absoluta criação da graça de Deus, dom
definitivo de Deus ao seu Povo.
Esta nova realidade instaura, consequentemente, uma nova ordem de
coisas e exige que tudo o que é velho seja transformado. O mar, símbolo
e resíduo do caos primitivo e das potências hostis a Deus,
desaparecerá; a velha terra, cenário da conduta pecadora do homem, vai
ser transformada e recriada (vers. 1). A partir daí, tudo será novo,
definitivo, acabado, perfeito.
Quando esta realidade irromper, celebrar-se-á o casamento definitivo
entre Deus e a humanidade transformada (a “noiva adornada para o
esposo”). Na linguagem profética, o casamento é um símbolo privilegiado
da aliança. Realiza-se, assim, o ideal da aliança (cf. Jer 31,33-38; Ez
37,27): Deus e o seu Povo consumam a sua história de intimidade e de
comunhão; Deus passará a residir de forma permanente e estável no meio
do seu Povo, como o noivo que se junta à sua amada e com ela partilha a
vida e o amor. A longa história de amor entre Deus e o seu Povo será
uma história de amor com um final feliz. Serão definitivamente banidos
do horizonte do homem a dor, as lágrimas, o sofrimento e a morte e
restarão a alegria, a harmonia e a felicidade sem fim.
EVANGELHO
O contexto em que este
trecho nos coloca é o de uma ceia (a última), na qual Jesus Se despede
dos discípulos e lhes deixa as últimas recomendações. Jesus acabou de
lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13,1-20), inclusive de quem iria
traí-lo, e de anunciar à comunidade desconcertada a traição de um do
grupo (cf. Jo 13,21-30); nesses quadros, está presente o seu amor (que
se faz serviço simples e humilde no episódio da lavagem dos pés e que
se faz amor que não julga, que não condena, que não limita a liberdade
e que se dirige até ao inimigo mortal, na referência a Judas, o
traidor). Em seguida, Jesus vai dirigir aos discípulos palavras de
despedida; essas suas palavras – resumo coerente de uma vida feita de
amor e partilha – soam a testamento final. Assim sendo, antes que Jesus
pudesse deixar aos seus o próprio testamento, Judas tomou a sua
decisão: saiu. João não se refere a um lugar físico (“Cenáculo”), mas
sim a um lugar, um contexto de encontro com Jesus: “saiu da presença de
Jesus”. A escolha de “sair” só pode ser uma escolha nossa, é fruto de
liberdade.
A morte uma realidade bem
próxima… Jesus explica, na sequência, que a sua morte na cruz será a
manifestação da sua glória e da glória do Pai. “Glória”, na linguagem
bíblica, é quase sempre sinônimo de “manifestação”, de algo que indica
a presença de Deus, mas mesmo tempo, preserva a sua transcendência. As
palavras de Jesus: «Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele»
podem muito bem ser referidas a todo o seu ministério, à pregação, aos
milagres, às atitudes de benevolência que o Senhor havia realizado até
então; neste sentido significam todo o esforço que Ele fez para
manifestar ao mundo, através de suas atitudes, o verdadeiro rosto de
Deus.
A entrega de Jesus na
cruz vai manifestar a todos os homens a lógica de Deus e mostrar a
todos como Deus é: amor radical, que se faz dom até às últimas
consequências.
«Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo».
Já haviam passado mais de 50 anos da morte de Jesus e as comunidades
cristãs viviam uma vida “alternativa” respeito aos padrões do mundo da
época. Sendo assim, é bem possível que o Evangelista recordou e intuiu,
nestas palavras, toda a missão da Igreja; entreviu nestas palavras o
verdadeiro testamento que Jesus havia deixado. A frase indica uma
reciprocidade: o Filho, fez da sua vida o lugar da manifestação plena
de Deus, do Pai, agora, uma vez que Jesus deixará a sua vida ligada a
um contexto histórico, geográfico, temporal, Deus fará a mesma coisa
com Ele. Fará conhecer ao mundo “quem” é o Filho, para que todos possam
acreditar Nele e assim Nele encontrar aquilo que tanto buscam.
Na segunda parte (vers.
33a.34-35) temos, então, a apresentação do “mandamento novo”. Começa
com a expressão “meus filhos” (vers. 33a) – o que nos coloca num quadro
de solene emoção e nos leva ao “testamento” de um pai que, à beira da
morte, transmite aos seus filhos a sua sabedoria de vida e aquilo que é
verdadeiramente fundamental. Em segundo lugar é possível ver uma outra,
profunda, diferença: a língua grega possui dois vocábulos que nós
traduzimos com “mandamento”, o primeiro indica a “norma”, a regra, a
obrigação; o segundo possui um significado de revelação, que pode ser
traduzido deste modo: “indicar o caminho para a meta”. Pois bem, o nosso texto traz a segunda opção. Aquilo que Jesus deixa, então, ressoa como um “dom” («eu vos dou»,
significa fazer um dom), não como uma obrigação. O Senhor revela, doa à
sua comunidade ao mesmo tempo o rosto, a lógica, o sentido e a meta da
sua existência. Não deixa uma obrigação, não dá um preceito de
comportamento ético, pois uma regra que substitui outras regras não
muda o coração do homem. Ele deixa uma finalidade nova, uma fisionomia
nova; isto sim pode mudar o sentido da vida de alguém.
Em que consiste, então este “mandamento”?
O texto indica explicitamente, repetindo três vezes a expressão: «um ao outro».
Com certeza esta expressão tinha um forte peso na comunidade cristã
primitiva. Era uma expressão que caracterizava a comunidade. Lendo os
Evangelhos nota-se uma estranha diferença entre os Sinóticos e João.
Este, diversamente dos outros, nunca fala de um “amor para os
inimigos”, ou de amor universal. O Evangelista, intencionalmente, se
preocupa principalmente com o “amor entre os discípulos”, pois, na
opinião dele (que Paulo também acompanha) o que mais pode falar ao
mundo sobre o Senhor e o próprio Pai, não são tanto os atos de
“bondade” ou caridade que os discípulos cumprem; não é tanto o amor
demonstrado aos outros que revela a intimidade de Deus, quanto uma
estranha “qualidade” de amor, uma característica específica da vida
cristã que é o amor-de-reciprocidade. Evidentemente, fazer
gestos de amor não é específico do cristão, mas ser capaz de gerar e
viver um “amor-de-reciprocidade” isto sim! É, este, o amor que suscita
a vontade de doar, de se entregar, de partilhar a vida, mas acima de
tudo é o sentimento que faz «carregar os pesos uns dos outros»
(Gal. 6,2) não por uma decisão voluntarista de “ajudar” ou “fazer o
bem”, mas porque o outro é sentido e percebido como parte de si mesmo.
O “amor-de-reciprocidade” é aquele que surpreende, pois sempre dá o
primeiro passo quando o outro esperaria outro tipo de reação.
Esta leitura nos faz lembrar as belíssimas palavras da primeira carta de João: «Nisto
consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele
nos amou e enviou o seu Filho pelos nossos pecados. Se Deus de tal
maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros» (4,10). Esta foi o “tipo” de amor de Jesus para conosco. Com este amor revelou ao mundo o Pai.
O amor de dar o primeiro
passo, de gerar “amor-de-reciprocidade”. Esta é a missão que Jesus nos
deixa e o instrumento de evangelização.
6º DOMINGO DO TEMPO PASCAL
LEITURA I – Atos 15,1-2.22-29
LEITURA II – Ap 21,10-14.22-23
EVANGELHO – Jo 14,23-29
Leitura dos Atos dos Apóstolos
Naqueles dias,
alguns homens que desceram da Judéia
ensinavam aos irmãos de Antioquia:
«Se não receberdes a circuncisão,
segundo a Lei de Moisés,
não podereis salvar-vos».
Isto provocou muita agitação e uma discussão intensa
que Paulo e Barnabé tiveram com eles.
Então decidiram que Paulo e Barnabé e mais alguns discípulos
subissem a Jerusalém
para tratarem dessa questão com os Apóstolos e os anciãos.
Os Apóstolos e os anciãos, de acordo com toda a Igreja,
decidiram escolher alguns irmãos
e mandá-los a Antioquia com Barnabé e Paulo.
Eram Judas, a quem chamavam Barsabás,
e Silas, homens de autoridade entre os irmãos.
Mandaram por eles esta carta:
«Os Apóstolos e os anciãos, irmãos vossos,
saúdam os irmãos de origem pagã
residentes em Antioquia, na Síria e na Cilícia.
Tendo sabido que, sem nossa autorização,
alguns dos nossos vos foram inquietar,
perturbando as vossas almas com as suas palavras,
resolvemos, de comum acordo,
escolher delegados para vo-los enviarmos
juntamente com os nossos queridos Barnabé e Paulo,
homens que expuseram a sua vida
pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por isso vos mandamos Judas e Silas,
que vos transmitirão de viva voz as nossas decisões.
O Espírito Santo e nós
decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação,
além destas que são indispensáveis:
abster-se da carne imolada aos ídolos,
do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais.
Procedereis bem, evitando tudo isso. Adeus».
A
primeira leitura desta semana nos traz muitos elementos importantes,
sobretudo para os dias atuais. Por isso vamos fazer um breve comentário
desse importante texto de ATOS antes de comentar o evangelho.
O texto proposto para esta primeira leitura é um texto eclesiológico,
isto é, diz respeito a normatização e legitimação da nossa
Igreja. O livro dos Atos sempre nos remete aos primeiros anos após a
ressurreição de Jesus, as caminhadas missionárias dos apóstolos e aos
problemas surgidos nas formações de comunidades.
A grande penetração de crentes gentios na comunidade cristã (sobretudo
após a primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé) começa a trazer
um problema: deve impor-se aos crentes de origem pagã a prática da Lei
de Moisés? Observe-se que nessa aparente simples questão, esconde-se um
problema fundamental, se a salvação vem através da circuncisão e da
observância da “Torah” judaica, ou única e exclusivamente por Cristo.
Jesus Cristo é o único Senhor e salvador, ou serão necessárias outras
coisas (práticas) além d’Ele para chegar a Deus e para receber a
salvação?
Esse foi um problema que perseguiu as primeiras comunidades,
notadamente de Antioquia, importante cidade da Síria (a terceira mais
importante do império Romano). Paulo e Barnabé acham que Cristo basta;
mas os chamados “judaizantes” , ou seja, cristãos de origem judaica e
que conservam as práticas tradicionais do judaísmo, defendem que todos
os rituais seguidos até então e prescritos pela “Torah” também são
necessários para a salvação.
Colocada a questão, a dúvida, decide-se, então, enviar uma delegação a
Jerusalém, a fim de consultar Pedro e os Apóstolos, testemunhas
oculares de Jesus e os anciãos (provavelmente também discípulos de
Jesus) acerca da questão. Estamos por volta do ano 49.
Essa
reunião. conhecida como “concílio apostólico” ou “concílio de
Jerusalém”vai, pois, discutir o que é essencial na proposta cristã e
que deve unir a pregação. Observe-se como começa a ser importante
nas primeiras comunidades a questão da unidade! Nessa “assembléia
eclesial” vão enfrentar-se várias opiniões. Pedro reconhece a igualdade
fundamental de todos – judeus e pagãos – diante da proposta de
salvação, que a Lei é um jugo que não deve ser imposto aos pagãos e que
é “pela graça do Senhor Jesus” que se chega à salvação (cf. At
15,7-12). A decisão final: não se pode impor aos gentios a lei judaica;
só Cristo basta. Assim dá-se luz verde à missão entre os pagãos. É a
decisão mais importante da Igreja nascente: o cristianismo cortou o
cordão umbilical com o judaísmo e pode, agora, ser uma proposta
universal de salvação, aberta a todos os homens, de todas as raças e
culturas.
É de destacar, ainda, a referência ao Espírito Santo do vers. 28: a
decisão é tomada por homens, sob o comando de Pedro mas assistidos pelo
Espírito. Manifesta-se, assim, a consciência da presença do Espírito,
que conduz e que assiste a Igreja na sua caminhada pela história.
EVANGELHO – Jo 14,23-29
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quem Me ama guardará a minha palavra
e meu Pai o amará;
Nós viremos a ele
e faremos nele a nossa morada.
Quem Me não ama não guarda a minha palavra.
Ora a palavra que ouvis não é minha,
mas do Pai que Me enviou.
Disse-vos estas coisas, estando ainda convosco.
Mas o Paráclito, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará todas as coisas
e vos recordará tudo o que Eu vos disse.
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.
Não vo-la dou como a dá o mundo.
Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes o que Eu vos disse:
Vou partir, mas voltarei para junto de vós.
Se Me amásseis,
ficaríeis contentes por Eu ir para o Pai,
porque o Pai é maior do que Eu.
Disse-vo-lo agora, antes de acontecer,
para que, quando acontecer, acrediteis».
Continuamos
no contexto da “ceia de despedida”. Jesus, que acaba de fundar a sua
comunidade, dando-lhe por estatuto o mandamento do amor (cf. Jo
13,1-17;13,33-35), vai agora explicar como é que essa comunidade
manterá, após a sua partida, a relação com Ele e com o Pai.
Os discípulos estão inquietos e desconcertados. Será possível continuar
a percorrer e caminho vivido até então, se Jesus não caminhar ao
lado deles? Para seguir esse “caminho” é preciso amar Jesus e guardar a
sua Palavra (cf. Jo 14,23). Quem ama Jesus e O escuta, identifica-se
com Ele, isto é, vive como Ele, na entrega da própria vida em favor do
homem… Ora, viver nesta dinâmica é estar continuamente em comunhão com
Jesus e com o Pai.
Para que os discípulos possam continuar a percorrer esse “caminho” no
tempo da Igreja, o Pai enviará o “paráclito”, isto é, o Espírito Santo
(vers. 25-26). A palavra “paráclito” pode traduzir-se como “advogado”,
“auxiliador”, “consolador”, “intercessor”. A função do “paráclito” é
“ensinar” e “recordar” tudo o que Jesus propôs. Trata-se, portanto, de
uma presença dinâmica, que auxiliará os discípulos trazendo-lhes
continuamente à memória os ensinamentos de Jesus e ajudando-os a ler as
propostas de Jesus à luz dos novos desafios que o mundo lhes colocar.
Assim, os crentes poderão continuar a percorrer, na história, o
“caminho” de Jesus, numa fidelidade dinâmica às suas propostas. O
Espírito garante, dessa forma, que o crente possa continuar a percorrer
esse “caminho” de amor e de entrega, unido a Jesus e ao Pai. A
comunidade cristã e cada homem tornam-se a morada de Deus: na acção dos
crentes revela-se o Deus libertador, que reside na comunidade e no
coração de cada crente e que tem um projecto de salvação para o homem.
O
Antigo Testamento conhece três maneiras de indicar o Espírito, porém
nos lábios de Jesus não está nenhuma delas. No AT o Espírito é visto
principalmente ou como uma força propulsora de Jahvé ou como
participação à vida, isto é, ao respiro que Deus dá. Nada disso se
encontra no vocábulo que está na boca de Jesus. De que “Espírito” Jesus
estava falando? Porque o Evangelista encontrou na palavra “Consolador”
para expressar o que Jesus estava querendo dizer? Antes de tudo sabemos
que, segundo a tradição profética, “consolar” é a tarefa própria do
Messias; assim, por um lado é Deus que vai se dar aos discípulos pelo
Espírito, por outro é o mesmo Jesus que continuará “consolando” os
seus, não deixando-os sozinhos. Lendo o livro de Isaias, o Profeta
anuncia o fim do cativeiro em Babilônia com estas palavras: «Consolai,
consolai o meu povo...» -o mesmo vocábulo usado pelo Evangelista para
indicar o Espírito- (Is. 40,1). Note-se a inesperada gratuidade entre
os dois eventos; note-se, ainda, que o processo de libertação está em
ato, não está encerrado, mas sim começado de modo definitivo. Tudo isto
dá realmente um sentido novo à nossa vida de fé.
A
última parte do texto que nos é proposto contém a promessa da “paz”.
Desejar a “paz” (“shalom”) era a saudação habitual à chegada e à
partida. No entanto, neste contexto, a saudação não é uma despedida
trivial (“não vo-la dou como a dá o mundo”), pois Jesus não vai estar
ausente. O que Jesus pretende é inculcar nos discípulos apreensivos a
serenidade e evitar-lhes o temor. São palavras destinadas a
tranquilizar os discípulos e a assegurar-lhes que os acontecimentos que
se aproximam não porão fim à relação entre Jesus e a sua comunidade.
SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR
LEITURA I – Atos 1,1-11
LEITURA II – Ef 1,17-23
EVANGELHO – Lc 24,46-53
«“Assim
está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro
dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a
todas as nações, começando por Jerusalém.Vós sereis testemunhas de tudo
isso.Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso,
permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”.
Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as
mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, desprendeu-se deles e foi
levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém,
com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus”». (Lc. 24,46-53)
A solenidade
da Ascensão, celebrada no texto de hoje, é o momento central entre a
Ressurreição de Jesus e o início da Igreja. O fato é mencionado somente
Lucas, tanto em seu Evangelho como no livro de Atos e narrado de forma
diferente. No Evangelho, a Ascensão acontece no mesmo dia da
Ressurreição; no livro dos Atos ela ocorre no final dos quarenta
dias que seguem a Ressurreição. É necessário então, entender o sentido
teológico que se encontra principalmente em dois aspectos.
À primeira
vista a Ascensão de Jesus se apresenta como uma “subida ao céu”, o que
não deixa de ser correto. Mas o “céu” não pode ser entendido como lugar
físico. Céu, na Escritura, é a condição permanente em que Deus se
encontra. “Céu” é a condição transcendente na qual Jesus entra,
superando todas as barreiras do tempo e do espaço. O verbo em grego que
define «se afastou deles», significa “estar em lugar diferente”,
indicando com isto que Jesus continua estando na sua comunidade, mas de
modo diferente, de modo mais condizente com o “céu”. A alegria que
brilha nos olhos e nos corações desses discípulos que testemunham a
entrada definitiva de Jesus na vida de Deus tem de ser uma realidade
que transparece na nossa vida. Os seguidores de Jesus, iluminados pela
fé, têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que os espera,
no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de testemunhar, com a
sua alegria, a certeza de que Deus está a atuar no mundo, está a
transformar os corações e as mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o
Homem Novo.
Percebe-se
no texto que Jesus, ao deixar os Apóstolos, preocupava-se que eles
compreendessem “como” interpretar as Escrituras, e o sentido de
toda a história passada. Era necessário que Ele deixasse aos Doze, a
chave de leitura de toda a história da salvação, para que isso pudesse
ser transmitido “a todos os povos”. O uso das Escrituras sem o devido
critério é uma manipulação para finalidades às vezes escusas; afinal, o
demônio não havia feito a mesma coisa quando das tentações no deserto?
Antes de ser elevado à glória, Jesus confiou à sua comunidade a
«inteligência das Escrituras»; ou seja, ao magistério da Igreja. Os
profetas anteciparam o Salvador, os Apóstolos levarão a presença do
Salvador a todos os povos espalhando o conhecimento que iniciou uma
nova era. A Igreja sentiu-se responsável por esta herança que o Senhor
lhe havia entregado. A leitura e interpretação da Escritura são tidas
como coisas “sagradas”, em todo o livro de Atos dos Apóstolos; a
Epístola de S.Pedro também se coloca na mesma linha: «Primeiramente saibam isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação privada» (2Pd.1,21); e assim também o Concílio Vaticano II: “A
Escritura deve ser lida e interpretada no mesmo espírito com a qual foi
escrita. A maneira de interpretar a Escritura, em última instância está
sujeita ao juízo da Igreja, a qual exerce o divino ministério de
guardar e interpretar a Palavra” (DV 12).
A
ressurreição/ascensão de Jesus convida-nos a ver a vida com outros
olhos – os olhos da esperança. Diz-nos que o sofrimento, a perseguição,
o ódio, a morte, não são a última palavra para definir o quadro do
nosso caminho; diz-nos que no final de um caminho percorrido na doação,
na entrega, no amor vivido até às últimas conseqüências, está a vida
definitiva, a vida de comunhão com Deus. Esta esperança permite-nos
enfrentar o medo, os nossos limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos
fazedores de pecado e permite-nos olhar com serenidade para a vida que
nos espera e para esse futuro de vida plena que é o nosso destino
final. O Ressuscitado quer continuar agindo em favor dos homens que
precisam de se encontrar com o Pai para serem felizes, santos. A
Ascensão de Jesus nos estimula a contemplar um “céu” que está tão entre
nós quanto está além de nós. Esta Solenidade nos estimula a olhar e
refletir sobre a maneira de viver a presença do Ressuscitado entre nós
e mais, nos questiona quanto ao espaço que deixamos ao Senhor para que
Ele possa continuar exercendo o seu sacerdócio, a sua mediação
salvifica em favor de tantas pessoas que ainda não conhecem o que quer
dizer sentirem-se amadas por Deus.
11º DOMINGO DO TEMPO COMUM
LEITURA I – 2 Sm 12,7-10.13
LEITURA II – Gal 2,16.19-21
EVANGELHO – Lc 7,36 – 8,3
A liturgia
deste domingo apresenta-nos um Deus de bondade e de misericórdia, que
detesta o pecado, mas ama o pecador. A primeira leitura, importante
para a compreensão da mensagem desta semana, apresenta-nos, através da
história do rei David, um Deus que não pactua com o pecado; mas que
também não abandona esse pecador que reconhece a sua falta e aceita o
dom da misericórdia. Na segunda leitura, Paulo garante-nos que a
salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana.
Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos, mas é
preciso identificar-se com o Cristo do amor e da entrega.
O texto do
Evangelho está situado na sua primeira parte. Convém recordar que esta
primeira parte se desenrola na Galiléia, sobretudo à volta do Lago de
Tiberíades. O lago de Tiberíades era um lago muito extenso que foi
“urbanizado” e explorado comercialmente por Herodes, com a finalidade
de tornar rentável aquele espaço. Os pescadores e comerciantes de suas
redondezas eram homens que pagavam um grande tributo a Herodes e
consequentemente a Roma. O nome do Lago, “Tiberíades” faz alusão ao
imperador de então, Tibério, que Herodes queria agradar. Fácil imaginar
que toda essa economia de altos impostos aos trabalhadores da pesca,
gerava muita exclusão e pobreza.
Talvez por
isso toda essa primeira parte do evangelho de Lucas esteja dominada
pelo anúncio da sinagoga de Nazaré, onde Jesus define a sua missão como
“anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e
mandar em liberdade os oprimidos” (Lc 4,16-30). O episódio situa-nos no
ambiente de um banquete, em casa de um fariseu chamado Simão. Lucas é o
único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até
aceitam sentar-se à mesa com Ele e até preveni-l’O em relação à ameaça
de Herodes (Lc 13,31).
A personagem
central é uma mulher que não é identificada por um nome. Lucas é o
único evangelista que refere-se a mulheres no grupo itinerante dos
discípulos. Isso era algo insólito, numa sociedade em que a
mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto,
manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos –
sem exceção – na comunidade do Reino. Lucas a apresenta como “uma
mulher da cidade que era pecadora”. Embora não haja indicações
escriturísticas de anteriores contatos entre Jesus e esta mulher,
podemos supor que a mulher já tinha encontrado com Jesus e percebeu
Nele algo diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar
os pecadores e em condená-los. O fato de Jesus acolher mulheres
em seu grupo era de verdade um escândalo, uma coisa inusitada, absurda,
pois nunca algum rabino havia acolhido mulheres entre seus discípulos.
Nem no mundo extra bíblico se encontra uma atitude desta. Alguns
rabinos eram firmes sustentadores de que uma mulher não pudesse sequer
se aproximar em público de um homem ou de falar a sós com ele (veja o
espanto dos Apóstolos no caso da mulher samaritana que se encontra a
sós com Jesus perto do poço de Jacó Jo. 4). Imaginemos então a situação
embaraçosa na qual se encontrou o fariseu quando uma mulher, conhecida
como “pecadora”, de repente se fazia presente à refeição oferecida a
Jesus. A ação desta mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os
pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e
ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como
conseqüência do perdão recebido. A parábola que Jesus conta, logo a
seguir, parece significar, não que o perdão resulta do muito amor
manifestado pela mulher, mas nasce de um coração agradecido da bondade
e da misericórdia de Deus. O perfume que ela lhe colocava nos pés era
como uma atitude de “bem-vindo” que Jesus não conseguiu encontrá-lo
naquele homem atento a todas as leis da religião, o encontrou entre as
lágrimas da mulher;
“Bem-vindo em minha vida” diziam-Lhe aquelas lágrimas carregadas de amor.
12º DOMINGO DO TEMPO COMUM
LEITURA I – Zac 12,10-11;13,1
LEITURA II – Gal 3,26-29
EVANGELHO – Lc 9,18-24
«Estando
ele orando à parte, achavam-se presentes os discípulos, a quem
perguntou: Quem dizem as multidões que sou eu? Responderam eles: João
Batista, mas outros, Elias; e ainda outros dizem que ressurgiu um dos
antigos profetas. Mas vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?
Então, falou Pedro e disse: És o Cristo de Deus. Ele, porém,
advertindo-os, mandou que a ninguém declarassem tal coisa, dizendo: É
necessário que o Filho do Homem sofra muitas coisas, seja rejeitado
pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto
e, no terceiro dia, ressuscite. Dizia a todos: Se alguém quer vir após
mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois
quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por mi,
esse a salvará.» (Lc. 9,18-24)
Estamos na
fase final da etapa da Galiléia. Jesus passou algum tempo a apresentar
o seu programa e a levar a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos
oprimidos (cf. Lc 4,16-21). À volta d’Ele, foi-se formando um grupo de
“testemunhas”, que apreciaram a sua atuação e vivenciaram a sua vida e
seus passos. Agora, são convidados a tirar as suas conclusões acerca do
que viram, ouviram e testemunharam.
Logo que
abrimos esta página do Evangelho percebemos dois discursos distintos. O
primeiro aponta a atenção sobre a identidade de Jesus: «Quem sou eu para vocês?» pergunta
o Senhor. Enquanto não estiver claro quem é Jesus para nós não tem
sentido qualquer atitude que nos relacione com Ele. Não se pode
realmente amar nem seguir alguém que não conhecemos, caso contrário
correremos sempre o risco de seguir uma imagem que criamos de Jesus,
como os próprios apóstolos.
A cena de
hoje começa com a indicação da oração de Jesus (vers. 18). É um dado
típico de Lucas que põe sempre Jesus a rezar antes de um momento
fundamental (cf. Lc 5,16; 6,12; 9,28-29; 10,21; 11,1; 22,32.40-46;
23,34). A oração é o lugar do reencontro de Jesus com o Pai; depois de
rezar, Jesus tem sempre uma mensagem importante – uma mensagem que vem
do Pai – para comunicar aos discípulos. A questão importante que, no
contexto do episódio de hoje, Jesus tem a comunicar, tem a ver com a
questão: “quem é Jesus?”
A época de
Jesus foi uma época de crise profunda para o Povo de Deus; foi,
portanto, uma época em que o sofrimento gerou uma enorme expectativa
messiânica. Asfixiado pela dor que a opressão trazia, o Povo de Deus
sonhava com a chegada desse libertador anunciado pelos profetas – um
grande chefe militar que, com a força das armas, iria restaurar o
império de seu pai David e obrigar os romanos opressores a levantar o
jugo de servidão que pesava sobre a nação. Na época apareceram, aliás,
várias figuras que se assumiram como “enviados de Deus”, criaram à sua
volta um clima de ebulição, arrastaram atrás de si grupos de discípulos
exaltados e acabaram, invariavelmente, chacinados pelas tropas romanas.
Jesus é também um destes demagogos, em quem o Povo vê cristalizada a
sua ânsia de libertação?
Aparentemente, Jesus não é considerado pelas multidões “o messias”: o
Povo identifica-o, preferentemente, com Elias, o profeta que as lendas
judaicas consideravam estar junto de Deus, reservado para o anúncio do
grande momento da libertação do Povo de Deus (vers. 19); talvez a sua
postura e a sua mensagem não correspondessem àquilo que se esperava de
um rei forte e vencedor.
Os
discípulos, no entanto, companheiros de “caminho” de Jesus, deviam ter
uma perspectiva mais elaborada e amadurecida. De facto, é isso que
acontece; por isso, Pedro não tem dúvidas em afirmar: “Tu és o messias
de Deus” (vers. 20). Pedro representa aqui a comunidade dos discípulos
– essa comunidade que acompanhou Jesus, testemunhou os seus gestos e
descobriu a sua ligação com Deus. Dizer que Jesus é o “messias”
significa reconhecer nele esse “enviado” de Deus, da linha davídica,
que havia de traduzir em realidade essas esperanças de libertação que
enchiam o coração de todos. Jesus não discorda da afirmação de
Pedro. Ele sabe, no entanto, que os discípulos sonhavam com um
“messias” político, poderoso e vitorioso e apressa-se a desfazer
possíveis equívocos e a esclarecer as coisas: Ele é o enviado de Deus
para libertar os homens; no entanto, não vai realizar essa libertação
pelo poder das armas, mas pelo amor e pelo dom da vida (vers. 22). No
seu horizonte próximo não está um trono, mas a cruz: é aí, na entrega
da vida por amor, que Ele realizará as antigas promessas de salvação
feitas por Deus ao seu Povo.
A última
parte do texto (vers. 23-24) contém palavras destinadas aos discípulos:
aos de ontem, de hoje e de amanhã. Todos são convidados a seguir Jesus,
isto é, a tomar – como Ele – a cruz do amor e da entrega, a derrubar os
muros do egoísmo e do orgulho, a renunciar a si mesmo e a fazer da vida
um dom. Isto não deve acontecer em circunstâncias excepcionais, mas na
vida quotidiana (“tome a sua cruz todos os dias”). Desta forma fica
definida a existência cristã.
13º DOMINGO DO TEMPO COMUM
«Como se aproximasse o tempo em que Jesus devia ser tirado deste mundo, ele tomou resolutamente o caminho para Jerusalém. Enviou mensageiros à sua frente. Eles entraram num povoado samaritano, para lhe preparar a pousada, mas não quiseram recebê-lo, porque perceberam que estavam indo para Jerusalém. Notando o fato, os discípulos Tiago e João lhe disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para acabar com eles?”. Mas Jesus virou-se para eles e os repreendeu. E se dirigiram para outro povoado. Enquanto faziam este percurso, um homem foi dizer a Jesus: “Vou te seguir para onde fores!”. Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas, as aves do céu têm ninhos. Mas o Filho do homem não tem onde apoiar a cabeça”. E disse a um outro: “Segue-me!” Ele respondeu: “Senhor, deixa que eu vá antes enterrar meu pai”. Mas Jesus replicou: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos, mas tu vai anunciar o Reino de Deus”. Outro ainda lhe disse: “Vou te seguir, Senhor, mas deixa que eu vá primeiro me despedir da família.”. Jesus lhe respondeu: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus”» (Lc. 9,51-62).
Estamos continuando na reflexão que nos é proposta nestes últimos domingos e que tem como centro o “seguir” Jesus: o que isto significa, o que implica, os efeitos que gera e mais. Hoje o Evangelho nos propõe três atitudes possíveis nesta aventura junto com Jesus. É bem provável que o Evangelista, Lucas, tenha reunido redacionalmente situações que se verificaram em outros momentos colocando-as em confrontação com o caminhar de Jesus; nas três situações poderemos ver ora aqui ora ali aspectos do nosso próprio caminhar com Jesus. Em cada um de nós podemos encontrar, em momentos diferentes, estas mesmas três atitudes que nos servirão como estímulos para adequar sempre mais a nossa vida à vida de Jesus. Vamos acompanhar os passos propostos.
Para Lucas é fé é um itinerário, é um proceder em direção a uma meta. Nisto está bem evidente nele a influência de São Paulo com o qual conviveu por muito tempo. Sendo assim, também a vida de Jesus é proposta como uma única viagem, uma viagem que tem como objetivo Jerusalém. Ver nesta Jerusalém somente um lugar físico é, evidentemente, um empobrecimento: trata-se da Jerusalém esperada, da Jerusalém que nunca será abalada e que não é uma cidade de muros. É a Jerusalém à qual se dirigia todo peregrino em busca do “lugar onde Deus está”. Sim, esta é a busca de todo homem, porque somente quando tiver encontrado o seu Deus o homem poderá ter paz. Mas de qual Jerusalém estamos falando? Os dois discípulos que acompanhavam Jesus, os mesmos que se precipitaram invocando o “fogo” sobre os habitantes de Samaria eram os mesmos que pouco antes haviam pedido a Jesus se sentarem-se «um à sua direita e outro à sua esquerda» (Mc. 10,37) quando Jesus tivesse tomado posse do seu reino. Lógico, se ele era Deus, tomaria posse em Jerusalém! Era então uma “Jerusalém” de sucesso aquela que eles esperavam. Evidentemente se enganavam, como nós fazemos quando nos agitamos, dizemos e agimos precipitadamente porque as coisas não decorrem como imaginaríamos que tivessem que acontecer e, afinal, não parecem ser um sucesso. É uma Jerusalém feita à nossa medida que procuramos quando agimos deste modo. O Evangelista associa a viagem de Jesus a uma saída: «devia ser tirado deste mundo». Este modo de entender nos reconduz ao grande passo que Deus deu em relação a Israel, quando, “tirando-o” do mundo feito da escravidão, da força e do poder, fazia daquele grupo anônimo um povo a caminho da própria identidade na liberdade. Jesus, de viagem para Jerusalém era o definitivo Moisés que conduz, aqueles que chama, rumo à liberdade construída através do amor dado sem medida, sem retornos, sem «mas», sem «deixa-me primeiro...».
Antes, porém, de refletirmos sobre as atitudes das pessoas que seguem Jesus, precisamos ver Jesus, pois Ele é o centro, a referência. Neste sentido, por exemplo, é muito importante a expressão que encontramos neste trecho do Evangelho que precisa ser traduzida assim: «siga a Mi»; o sentido é bem diferente de outra semelhante: “siga-me” pois, esta última dá ênfase ao ato de seguir, enquanto a outra dá realce à pessoa que precisa seguir. Voltando a Jesus: «ele tomou resolutamente o caminho para Jerusalém», diz o Evangelista. Tecnicamente o verbo usado significa: “afirmou o rosto”, o que se liga ao comportamento dos profetas quando devem assumir definitivamente uma posição em favor de Deus e que, possivelmente, lhes custará (veja-se o caso de Jeremias -3,8 e outros Profetas). É a decisão definitiva, irrevogável. Não que Jesus não tenha já decidido em favor do projeto do Pai, mas para cada um de nós, como tem sido para Jesus, esta decisão se re-propõe com forças sempre maiores. Quanto ao nosso “sim” a Deus, nunca podemos pretender de tê-lo dado definitivamente, isto porque aquele “sim” é o nosso “sim”, nem sempre como Deus deseja o seu “sim” em nossos lábios. Vem, como para Jesus, o momento de «firmar o rosto», ou seja, não permitir que o nosso rosto manifeste ainda expressões de titubeio, indecisão. A hesitação é possível e a insegurança deve existir numa caminhada, mas até certo ponto, pois quando passa disto, são sintomas de que algo não foi dado totalmente a Deus e ainda está guardado a sete chaves dentro do nosso “eu”. “Firmar o rosto” é um sentimento que brota espontâneo e que nasce do coração, é um sentimento de liberdade na entrega; “firmar o rosto” é, em todo caso, algo diferente de “endurecer o rosto” o que, na Escritura é expressão de orgulho e de orgulho ferido que não se dobra. O primeiro é amor, o segundo é pecado.
O pequeno grupo passava pela Samaria. Se é verdade que se tratava de um caminho que às vezes os peregrinos faziam para chegar a Jerusalém, aqui a passagem de Jesus adquire um sentido espiritual: Jesus “firma o rosto” bem no meio de um território de pessoas que se tinham afastado do projeto de Deus, que tinham deixado a identidade que Deus queria dar-lhes para escolher para si outra forma religiosa de seguir a Deus: paradoxalmente pensavam de fazer a vontade de Deus deixando o que Deus lhes propunha. Seguir a Deus é seguir a Deus; não é seguir o que nós queremos em relação a Deus; esta atitude não expressa aquilo que o rosto de Jesus expressava. Sem dúvida os Samaritanos faziam seus sacrifícios, suas orações a Deus, seus atos de piedade etc. tudo certo, tudo bom... mas não era aquilo que Deus havia preparado para eles. Jesus entrava em Samaria para revelar como é o “rosto” de quem decidiu dentro do seu coração de se entregar de fato ao Pai e aos homens. O rosto Dele -como o nosso- manifestará ainda medo, lágrimas, “suor de sangue”, fragilidade, decepção... mas nunca titubeio! ...Porém, um rosto firme, não é um rosto duro.
Passamos agora às três situações do caminhar com Jesus.
A primeira: é um homem não identificado, um alguém que, provavelmente, não continuou, caso contrário o Evangelista faria questão de dar um nome. É lícito então perguntar: porque não continuou? A resposta nos é sugerida justamente na maneira de se aproximar do homem e na resposta de Jesus. «Vou te seguir para onde fores!», estritamente pode ser expresso assim: “te seguirei mesmo que vás longe”. Obviamente á um lindo gesto de generosidade, própria de quem se lança porque atraído por Jesus; isto é bom, contudo não é sempre suficiente: após a generosidade inicial é necessária a generosidade da maturidade. Para ele não era problema afastar-se da casa, terra, pessoas... era um “alguém” desprendido (o que já é uma riqueza), o ponto fraco era outro que Jesus percebeu. Como Pedro, também este “alguém” crê, acha, tem a presunção de saber seguir Jesus, mas a diferença esta ainda mais a fundo: este “alguém” não se sentiu “chamado”, simplesmente “quis”. Quando alguém sabe de ser “chamado” e leva isto em consideração para o resto da vida, então sabe também como deixar a si mesmo e renunciar aos próprios caprichos porquanto válidos e justificados que forem, o que Pedro soube fazer. A resposta de Jesus nos diz quais eram as dificuldades que aquele “alguém” teria encontrado. As raposas procuram o “seu” abrigo na terra, nela encontram a sua proteção e segurança; os pássaros no céu (especificamente o Salmo 84 fala do pássaro que encontra abrigo no Templo de Jerusalém). Nem a “terra” a atitude da razão, nem a “religiosidade” piedosa fazem parte da proposta de Jesus; o que ele oferece é ser como o Filho do homem (Dan. 7) que não tem onde se apegar, nem na terra nem no Templo (segundo Daniel esta personagem “tem suas raízes no céu”, mas está com os homens). Jesus é como Jacó, que não tinha travesseiro e fez um para si com uma pedra (Gen. 28,11): foi ali, quando obedecia a Deus que Deus o encontrou abrindo o caminho do céu para si e para o seu povo.
A outra situação é típica daquele que de fato é chamado: «siga a Mim», disse-lhe Jesus. Para este o problema não está no fato de ter sido chamado e de saber claramente o valor de tudo isto; ele está livre da presunção de saber seguir. O impedimento está noutro lugar; é a tentação que acontece desde o início e sempre nos acompanha, a tentação do “mas...”, “primeiro...”. Estabelecer “quando” e “como” dar a Deus. A entrega ou é total, (mesmo que tenhamos que aprender com o tempo o que significa esta totalidade), ou não é entrega, logo não será possível «anunciar o Reino de Deus», porque Deus não reina; as palavras deste alguém serão suas palavras, não de Deus. Jesus pede para «anunciar o Reino de Deus».
A terceira é representada por aquele que, embora tenha decidido deixar de lado as próprias aspirações, projetos etc. em favor de Jesus, de fato têm contínuos retornos. Dificuldades, problemas existem e devem existir no caminho com Deus, mas isto não justifica a atitude daquele que fica continuamente “olhando para trás”. É muito exagerado pensar na mulher de Ló (Gen. 19,26), que voltou-se para ver o que estava deixando e tornou-se uma estátua cheia daquele sal que dá a morte a qualquer terra onde caia? Aquilo que Jesus pede é a atitude de Eliseu, o qual “queimou” o arado, em sinal da sua atitude definitiva e irreversível com a qual se entregava ao serviço de Deus e oferecia, fazendo isto, a antecipação do banquete messiânico feito de «carnes gordas» cfr. Is. 25,6. É assim que se ama!
Domingo de Pentecostes
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
LEITURA I – Atos 2,1-11
LEITURA II – 1 Cor 12,3b-7.12-13
EVANGELHO – Jo 20,19-23
«Na
tarde do mesmo dia, que era o primeiro depois do sábado, os discípulos
estavam reunidos com portas fechadas, por medo dos judeus. Então Jesus
entrou, ficou no meio deles, e disse: “A paz esteja convosco!”. Dizendo
isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Quando os discípulos viram o
Senhor, ficaram cheios de alegria. Então Jesus lhes disse de novo: “A
paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio”.
Depois destas palavras, soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o
Espírito Santo, aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados;
aqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos”» » (Jo. 20,19-23)
Esta festa
encerra o tempo de meditação sobre o evento Pascal para dar início à
caminhada quotidiana. No entanto, esta comunidade ainda não se
encontrou com Cristo ressuscitado e ainda não tomou consciência das
implicações da ressurreição. Este texto situa-nos no cenáculo, no
próprio dia da ressurreição. Apresenta-nos a comunidade da nova
aliança, nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. É uma
comunidade fechada, insegura, com medo… Necessita de fazer a
experiência do Espírito; só depois, estará preparada para assumir a sua
missão no mundo e dar testemunho do projeto libertador de Jesus.
Nos
“Atos”, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do
Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa (sem dúvida por razões
teológicas e para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa
judaica do Pentecostes, a festa do dom da Lei e da constituição do Povo
de Deus); mas João situa no anoitecer do dia de Páscoa a recepção do
Espírito pelos discípulos.
João
narra o “anoitecer”, as “portas fechadas”, o “medo” ,,, são o quadro
que reproduz a situação de uma comunidade desamparada no meio de um
ambiente hostil e, portanto, desorientada e insegura, que perdeu as
suas referências e a sua identidade. Entretanto, Jesus aparece
“no meio deles”, indicando desta forma que os discípulos, no encontro
com Jesus ressuscitado, redescobriram o seu centro, o seu ponto de
referência. Não é coincidência que Jesus começa por saudá-los,
desejando-lhes “a paz”. A “paz” significa a transmissão da serenidade,
da tranquilidade e da confiança: a partir de agora, Jesus ressuscitado
está “no meio deles”.
O gesto
de Jesus de soprar sobre os discípulos reproduz o gesto de Deus ao
comunicar a vida ao homem de argila (João utiliza, aqui, precisamente o
mesmo verbo do texto grego de Gn 2,7). Com o “sopro” de Deus de Gn 2,7,
o homem tornou-se um “ser vivente”; com este “sopro”, Jesus transmite
aos discípulos a vida nova e faz nascer o Homem Novo. O Espírito é
apresentado como “a força de Deus”, sempre através de dois símbolos: o
vento e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no Sinai, quando
Deus deu ao Povo a Lei e constituiu Israel como Povo de Deus (cf. Ex
19,16.18; Dt 4,36). Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus,
que vem ao encontro do homem, comunica com o homem e que, dando ao
homem o Espírito, constitui a comunidade de Deus.
Alguns
gostam de indicar a festa de hoje como a festa da Igreja, outros do
Espírito Santo, outros vêem hoje a festa da “fundação”, do começo da
Igreja... Trata-se de uma belíssima festa, cujo valor pode ser
compreendido melhor uma vez depurada de algumas formas espalhafatosas
com as quais se pretendem mais representar sensações do que transmitir
conteúdos de fé.
Algumas
informações sobre a origem da festa, talvez possam ajudar-nos a sentir
a “alegria” que sempre é associada a esta festa. Desde sempre a relação
entre os deuses e os homens foi representada por indivíduos que se
apresentavam como invadidos pelo espírito dos deuses. Personificavam o
limite entre a divindade e a humanidade e através do Rito queria ser
mostrado o conflito entre a dimensão divina e humana. Nessa
representação, o homem, não podendo suportar a presença de algo tão
superior como o espírito dos deuses, respondia com gemidos, gritos,
gestos estranhos, cortes na própria carne, mudança de voz etc.
Manifestações como estas, se encontram também entre as primeiras formas
de profetismo em Israel, mas bem cedo são consideradas como
manifestações falsas que não garantem que o Espírito de Jahvé esteja
agindo; veja-se, por exemplo, a diferença entre Elias e os profetas de
Baal (1Rs. 18,22.28). É impróprio e não é conforme a nossa fé
identificar o Espírito com fenômenos como estes.
Pentecostes significa “festa do qüinquagésimo dia”.
Sua origem é muito antiga, trata-se de uma festa agrícola, de grande
alegria, festejada desde o tempo em que Israel se tornou um povo
sedentário; mais ou menos 1200 anos AC. No livro do Deuteronômio é
descrita a forma como deveria ser celebrada, não excluindo ninguém da
alegria, que deveria ser o centro desta festa: «Alegrar-te-ás
perante o Senhor teu Deus, tu, e o teu filho, e a tua filha, e o teu
servo, e a tua serva, e o levita que está dentro da tua cidade, e o
estrangeiro, e o órfão, e a viúva que estão no meio de ti, no lugar que
o Senhor teu Deus, escolher para ali fazer habitar o seu nome»
(Dt. 16,11). A festa, logo, não é um sentimentalismo privado mas de
algo que envolve a comunidade como um todo, onde há espaço inclusive
para os que estão à margem da sociedade: «servo, estrangeiro, órfão, viúva».
O símbolo
principal da festa era o “primeiro feixe de trigo” da colheita do ano.
Este era apresentado a Jahvé como oferta e representava a gratidão pela
colheita. Para um hebreu poder colher o próprio trigo, significava não
estar mais obrigado a trabalhar como servo dos Egípcios. Naquele feixe
estava presente o símbolo da liberdade que Deus havia proporcionado ao
seu povo.
Com a
primeira colheita de trigo cada família fazia um pão que era oferecido
a Deus em agradecimento; este pão era dado também aos pobres. Muitas
vezes, em suas parábolas, Jesus indicou o mundo como o “campo de Deus”,
no qual Ele, o Senhor, semeia a sua palavra, a qual dará frutos, mesmo
que uma parte se perca e outra seja sufocada. Jesus havia semeado a sua
palavra e algumas pessoas, com todos os seus limites e erros, haviam
permitido que germinasse em suas vidas. Era a primeira colheita de
Jesus. Aquele grupo de fiéis era o primeiro feixe de trigo nascido de
uma semente que morreu, o primeiro “pão” confeccionado com aquilo que
Jesus havia semeado. Nascia a Igreja. Cheia de dificuldades, problemas,
pecados, mas cheia de perdão, de força de amar, portadora de um tesouro
maior do que ela mesma: o próprio Cristo.
SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE
LEITURA I – Prov 8,22-31
LEITURA II – Rom 5,1-5
EVANGELHO – Jo 16,12-15
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer,
mas não as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu
e vo-lo anunciará».
A
Solenidade de hoje é a “história de amor”de Deus para com o homem. Do
Deus criador que se manifesta aos homens na beleza e na harmonia das
obras criadas, em Jesus Cristo, seu filho, o grande revelador do amor
do Pai que derrama sobre nós as graças e os dons do céu e nos oferece a
vida em plenitude. E do Espírito que acompanha a caminhada do homem.
Na
Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor
de um Deus que soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de
fazer caminho conosco. Apesar da recusa do homem, por egoísmo, por
orgulho, ou auto-suficiência, Deus continua a fazer-nos propostas de
vida. O amor de Deus aos homens é um amor gratuito e incondicional, que
se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos
conduzem à felicidade plena.
A vinda de
Jesus Cristo, Deus encarnado é a prova desse amor incondicional. Vir ao
encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e sinal de que
quis até partilhar conosco a precariedade e a fragilidade da nossa
existência para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e
herdeiros da vida em plenitude.
Esta
passagem de São João retoma o texto da Solenidade do Pentecostes
(semana passada) sobre o Espírito de verdade que será guia para a
verdade total… É o Espírito que dará a força aos apóstolos para
compreender e agir em missão. O Espírito Santo desvela
progressivamente, ao longo da história da Igreja essa ação destinada a
toda a humanidade e principalmente a comunidade de fé. A fé implica um
salto no desconhecido! E isto verifica-se particularmente no mistério
da Santíssima Trindade. A palavra não se encontra na Bíblia, mas a
realidade que quer exprimir está muito presente no ensino de Jesus. No
texto proposto, vemos com que insistência Jesus fala de seu Pai e do
Espírito de verdade. Jesus diz, o mais explicitamente possível, que
entre o Pai, o Espírito e Ele tudo é comum… Deus que é Pai, Filho e
Espírito, Deus Único mas não solitário, Deus comunhão é a pedra angular
da fé cristã, a diferença, sem dúvida, fundamental em relação às outras
concepções de Deus.
O texto do
evangelho de João que nos é proposto neste domingo situa-se no contexto
da última ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de
Jesus. Depois de constituir a comunidade do amor e do serviço e de
apresentar o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa
comunidade, Jesus vai definir a missão da comunidade no mundo:
testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito. Jesus avisa, no
entanto, que o caminho do testemunho deparará não será fácil; mas os
discípulos contarão com o Espírito: Ele vai ajudá-los e vai lhes dar
segurança no meio da perseguição. O tema fundamental desta
leitura tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em
caminhada pelo mundo. Jesus começa por dizer aos discípulos que
há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento. As
palavras de Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo da
existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até
à “parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja,
continuar a captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela?
A resposta de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a
minha proposta continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade e
no coração de cada crente; além disso, o Espírito ensinar-vos-á a
entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a
discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a
vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas
propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com
que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em
caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada
circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde irá o Espírito buscar essa verdade que vai transmitir
continuamente aos discípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá
do que é meu e vo-lo anunciará” – vers. 14). Assim, Jesus continuará em
comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e
o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus
e os discípulos em marcha pela história.
A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente
entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano
salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na
vida da Igreja, por acção do Espírito.
Os
cristãos precisavam de algum modo encontrar uma expressão que pudesse
sintetizar tudo o que Jesus dizia sobre Deus. E isso demorou mais
de trezentos anos depois da morte de Jesus, quando os fieis conseguiram
encontrar uma palavra que expressasse aquilo que haviam entendido sobre
Deus e que lhes fora transmitido por Jesus. Como se pode
pretender reduzir aos conceitos humanos a imensidão do conceito de
Deus, algo que supera infinitamente a linguagem humana? Foi assim que
nasceu a palavra Trindade.
Para nos auxiliar nessa compreensão temos de olhar para Jesus. Ele
chamava a Deus de “Pai” mas num sentido muito diferente da maneira de
um hebreu invocar Deus. O hebreu se dirigia a Deus chamando-O de “pai”
reconhecendo Nele a origem do povo de Israel. Nunca se pressupunha que
Deus tivesse uma relação semelhante à de um homem com seu filho!
Que era justamente a forma que Jesus chamava Deus (Ab-bá=Pai) e com
isso indicando que entre Ele e Jahvé existia uma relação específica e
única: todos os Evangelhos estão permeados por um diálogo “filial”
entre Jesus e Jahvé; diálogo sempre repleto de momentos de alegria, de
silêncio, de sintonia, de adesão... um verdadeiro dialogo entre duas
pessoas que se colocam uma diante da outra, face a face, no mesmo
nível. Evidentemente este modo de Jesus se dirigir a Deus, atraiu
sobre si a acusação de blasfêmia.
Jesus
estava encerrando a sua vida junto com os discípulos; as palavras que
lemos nas leituras propostas pela Igreja neste período pós pascal fazem
parte de um grande estudo sobre o Espírito Santo. Jesus sabia que
os discípulos não teriam as condições de entender nada mais do que
aquilo que já Ele havia ensinado. Com certeza por isso O deixaram
sozinho depois que Ele foi preso.
Para fazer
a vontade de Deus ou aceitá-la, é preciso algo mais do que um desejo
genérico ou um sentimento. É necessária uma forte e radical decisão que
surge unicamente quando nos sentimos profundamente envolvidos por um
grande amor, pois somente o amor pode fazer com que uma pessoa supere
seus limites e experimente que as suas forças são maiores de quanto
achava de possuir. Não é isto que uma mãe experimenta com seu filho?
Pois bem, entendem-se assim as palavras de Jesus o qual alenta os seus
discípulos indicando-lhes que o próprio Deus, o mesmo Amor vivo que é
relação sem limites e sem barreiras, o mesmo Amor que –por assim dizer-
faz continuamente transcender Deus em si mesmo num infinito dinamismo,
será este mesmo Amor que os «conduzirá na verdade». Eis, então, o
Espírito. Ele nos faz experimentar que somos projetados para o
infinito, capazes de transcender e ultrapassar a nós mesmos para poder
trilhar o caminho do amor.
Santíssima Trindade!
Um
mistério imenso que ultrapassa as nossas concepções humanas e no qual
somos convidados a entrar. Durante a semana dediquemos sempre um tempo
à oração, à contemplação e, com isso, dar lugar ao silêncio. Dar espaço
ao silêncio para que a Trindade ecoe em nós, e deixar-nos
mergulhar no coração deste mistério e um tempo para redirecionar
novamente as nossas vidas de batizados
10º DOMINGO DO TEMPO COMUM
LEITURA I – 1 Reis 17, 17-24
LEITURA II – Gal 1, 11-19
EVANGELHO – Lc 7,11-17
«Jesus
dirigiu-se a uma cidade chamada Naim. Com ele iam seus discípulos e uma
grande multidão. Quando chegou à porta da cidade, eis que levavam um
defunto, filho único; e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade a
acompanhava. Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe
disse: “Não chores!”. Aproximou-se, tocou o féretro, e os que o
carregavam pararam. Então, Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno,
levanta-te!”. O que estava morto ficou ereto e começou a falar. E Jesus
o entregou à sua mãe. Todos ficaram com muito medo e glorificavam a
Deus, dizendo: “Um grande profeta apareceu entre nós Deus veio visitar
o seu povo”. E a notícia do fato espalhou-se pela Judéia inteira, e por
toda a redondeza.» (Lc. 7,11-17)
Naim, uma
pequena cidade cujo nome significa “graciosa”, fica a 10 km de Nazaré.
Tão pequena que só ocasionalmente ou por motivos de força maior, alguém
desviaria o seu caminho para entrar naquela pequena aldeia. Nota-se,
porém, que Lucas, faz questão de narrar que tudo acontece nessa pequena
aldeia. E aproveita o lugar para chamar Jesus de «o Senhor» pela primeira vez. No seu evangelho Lucas usa essa expressão, mas sempre referida ao Deus do Antigo Testamento.
O desvio
para a pequena Naim, pode ser uma indicação da maneira com a qual Jesus
entra em nossa vida: inesperada e decisivamente. Lucas ainda fixa qual
é o lugar do encontro: a porta da cidade. No Antigo Testamento, a
“porta da cidade” era o lugar onde eram realizados os julgamentos ( Dt.
22,15; Jo. 5,4 etc.). Assim sendo, essa alusão “a porta da cidade”
indica que o encontro com Jesus é o julgamento definitivo, o momento em
que se decide a sorte de um conflito entre o que atormenta o homem e o
que o salva modificando completamente a sua existência.
A leitura nos coloca diante de uma procissão que carrega a morte
até o limite da cidade, um cortejo de pessoas que não esperam mais nada
(na época não se pensava em ressurreição nem que houvesse uma vida após
a morte). “Terra de esquecimento” (Sal. 88,12) era chamada a
terra do sepultamento: após o último gesto piedoso do enterro nada mais
restaria do que a lembrança.
Mas Lucas
vai mais além na sua narrativa. O Evangelista ressalta: «filho único de
mãe viúva»; indica uma cultura que gera injustiças, solidão,
incompreensão. Era assim em Israel na época de Jesus; embora existissem
leis que teoricamente deveriam proteger as viúvas, isto de fato não
ocorria, principalmente se a viúva não tivesse um filho que assumisse
as defesas dos seus direitos públicos e seu sustento. Esta seria a sina
daquela mulher. À dor acrescentava-se a injustiça e a penúria que lhe
esperava daquele momento em diante.
No limite da porta, este cortejo se encontra com outro cortejo: Jesus e
os seus. Não é difícil ver aqui a intenção de Lucas de indicar Cristo
com a sua Igreja. É no encontro com este segundo cortejo que as coisas
mudam. Imediatamente o Evangelista apresenta Jesus com os traços que O
caracterizam: «O Senhor teve compaixão». Compaixão é sentir
os sentimentos do outro e vivê-los “junto” com o outro. É colocar-se no
lugar de quem as está vivendo. Assim, Lucas nos apresenta Jesus como
aquele que dá o primeiro passo em direção de quem está chorando. Jesus
foi ao encontro da viúva e, tocando o esquife, deu um fim a toda aquela
procissão, não permitindo assim que a tristeza pudesse transpor a
porta.
A procissão parou.
Antes que a nossa última resposta seja a derrota sempre existe a resposta de Jesus.
O encontro com Jesus é uma resposta real àquelas perguntas que, sem Ele, teriam o vazio como perspectiva. «Mostrarás tu prodígios aos mortos ou os finados se levantarão para te louvar? »
perguntava retoricamente o Salmo; o Evangelista via no jovem o
testemunho e o sentido que somente o pode entender quem já
experimentou de algum modo o que significa se encontrar à beira do
abismo da existência e, de repente, gratuitamente, encontrou Deus em
seu trajeto.
A última palavra não é, nunca, aquela que acreditamos que possa ser.
14/02 – VI Domingo do Tempo Comum: AS BEM-AVENTURANÇAS
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Jesus
desceu da montanha com os discípulos e parou num lugar plano. Ali
estavam muitos de seus discípulos e grande multidão de gente de toda a
Judéia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. E, levantando os
olhos para os seus discípulos, disse: “Bem-aventurados vós, os pobres,
porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós, que tendes fome
agora, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que chorais agora,
porque havereis de rir! Bem-aventurados sereis, quando os homens vos
odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome,
por causa do Filho do Homem! Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois
será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os
antepassados deles tratavam os profetas. Mas, ai de vós, ricos, porque
já tendes vossa consolação! Ai de vós, que agora tendes fartura, porque
passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e
lágrimas! Ai de vós, quando todos vos elogiam! Era assim que os
antepassados deles tratavam os falsos profetas”». (Lc. 6,17.20-26)
O “sermão da planície” (Mateus situa o discurso das bem-aventuranças numa montanha), rodeado dos discípulos e por uma multidão “que acorrera para O ouvir e ser curada dos seus males”
(Lc 6,18). Este texto encontra-se na primeira parte do Evangelho de
Lucas (“atividade de Jesus na Galileia” – Lc 4,14-9,50) onde Lucas
apresenta um primeiro anúncio sobre Jesus (chamado “kerigma”).
Aliás, toda essa primeira parte é dominada pelo episódio da sinagoga de
Nazaré, que vimos em semanas anteriores, onde Jesus anuncia o seu
programa: “o Espírito do Senhor está sobre Mim porque Me ungiu,
para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação
aos cativos…” (Lc 4,18-19).
A
leitura do domingo passado narrou a situação em que Pedro e os outros
três pescadores souberam entender a “palavra” que Jesus dizia de um
modo completamente diferente do da multidão. A ponto deles, a partir
desse momento, seguirem o Senhor deixando cada um seus próprios
projetos particulares de vida.
O Evangelho começa narrando: «Jesus desceu da montanha com os discípulos».
Se pudermos ler um trecho anterior a este (Lc. 6,12ss) veremos que
entre a decisão de Pedro no episódio da barca e este das
bem-aventuranças somou-se um grupo de outros seguidores. Após uma noite em oração,
Jesus escolhe os Doze. A missão de Jesus, portanto, inicia novamente
com a oração, com o recolhimento, com a necessidade de pedir ao Pai a
sabedoria para o momento mais difícil do homem: a escolha
Alguns
teólogos gostavam de chamar as bem-aventuranças de “nova lei de Jesus”
devido a semelhanças entre a montanha na qual Moisés recebe “a lei”
(êxodo 19). Mas essa alusão não é totalmente correta: Jesus não quer
substituir a Lei de Moisés. Sequer o agir de Jesus é o de alguém que
quer impor uma “lei”, mas sim uma proposta, um convite que amorosamente
Jesus faz. Vejamos que na Aliança do monte Sinai está sempre no
condicional: “se....” , “então....”. No trecho de
Lucas, pelo contrário tudo é gratuito e incondicional. Jesus não
condiciona um novo comportamento ético ou moral como condição para as
bem-aventuranças: Ele não está pedindo a ninguém para ser miserável,
chorar, ter fome... como se isso fosse a vontade de Deus!
Outra
diferença é que a presença de Deus no Sinai é acompanhada por fenômenos
naturais que assustam: trovões, raios, enfim, o texto se serve de um
gênero literário próprio que visava recordar ao homem a sua condição
ínfima diante de Jahvé e o medo diante do desconhecido. Em Lucas, pelo
contrário, a narrativa mostra um clima de serenidade e familiaridade no
anúncio de Jesus. Com Ele não há lugar para o medo, a distância, a
subordinação. Percebemos, aliás, um profundo respeito, diria quase que
as bem-aventuranças mostram a satisfação de Jesus que se felicita com
os seus interlocutores, pois eles possuem algo tão valioso do qual
desconhecem a importância.
No
Sinai, Moisés falava para o povo “de cima para baixo”, no nosso trecho
Jesus é quem olha “de baixo para cima”. Assim nos diz o Evangelista: «E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse...».
Levantar o olhar em direção de alguém era o gesto típico do servo,
gesto próprio do momento em que ouvia a vontade daquele que estava
pronto a servir. É este gesto que nos mostra o significado central das
Bem-aventuranças: Jesus, como exemplo se oferece como serviço àquele
homem, pobre, faminto, desesperado que se aproxima de Deus. Jesus está
pronto a ouvir. Ao contemplar Jesus neste gesto, na atitude e nos
sentimentos sugeridos pelo Salmo (123,2), voltam à memória as palavras
que a Liturgia da Sexta Feira Santa coloca na boca de Jesus: “O que mais poderia eu ter feito?”.
De
modo diferente da visão de salvação dada pelos Mandamentos, Jesus
mostra que a salvação, isto é, a comunhão com Deus, não se dá pela
obediência a uma regra mas pelo caminho de solidariedade identificadas
nas bem-aventuranças, entre algumas pessoas e o “Filho do homem”.
Nota-se, pois, que Jesus não fala de modo genérico, mas se dirige
diretamente a pessoas específicas: «vós».
Jesus não está dando aqui uma nova moral ou comportamento. Ele está
constatando um fato: a situação em que vivem algumas pessoas,
contrariamente ao que acha o “mundo” é condição favorável para fazer
experiência do que significa “ser salvo”: O “pobre”. É preciso, contudo
fazer uma ressalva: a palavra usada aqui para definir os
bem-aventurados pouco tem a ver com miséria, escassez econômica (mesmo
não a excluindo). Observemos que Jesus auando diz: «vós, os pobres»
Ele inclui Pedro, Tiago e os outros que, com certeza, não eram pessoas
carentes economicamente, pois possuíam barcos próprios e empregados
para a sua empresa de pescaria...
Pobres,
os que têm fome, os que choram, os que são perseguidos. A palavra grega
usada por Lucas para “pobres” (ptôchos) traduz certos termos hebraicos
(‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem uma
classe de pessoas privadas de bens e à mercê da prepotência e da
violência dos ricos e dos poderosos sem ter chance de defesa. Por isso
o texto diz que eles têm fome, choram e são perseguidos. São as
atitudes com as quais reage alguém que sofre uma opressão. Significa
literalmente: “aquele que se encolhe por causa do medo”.
Mas
o medo vem de uma percepção da própria impotência diante das
injustiças, da nossa fragilidade natural, das ofensas mais profundas à
dignidade humana, tais como a fome. Neste sentido, Lucas dá ao pobre o
sentido daquele ao qual só resta “chorar” porque tudo é inútil para
ele, porque não tem mais saída, esperança. Mas é u m “pobre” que mesmo
mergulhado nesse medo da impotência, segue Jesus, acolhe a sua oferta e
espera em Deus. E a resposta de Deus são as palavras de Jesus nessas
bem-aventuranças.
Pobre
é também cada um que numa atitude humilde se coloca numa posição de
espera ativa e confiante em Deus. Que escuta e, sem pretender nada, bem
no fundo do coração sabe que não será decepcionado.
Alguns anos mais tarde o Apóstolo Paulo comentará esta atitude que caracterizou a vida do Senhor com palavras lapidárias: «O Senhor Jesus, sendo rico, se fez pobre por amor de vós!» (2Cor. 8,9).
21/02 – I Domingo da Quaresma: JESUS É TENTADO NO DESERTO
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Jesus,
cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era
guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias.
Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo
disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se
mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o
homem’”. O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante
todos os reinos do mundo e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e
toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a
quem quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo
isso será teu”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor
teu Deus, e só a ele servirás’”. Depois o diabo levou Jesus a
Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se
és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus
ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E
mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma
pedra’”. Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o
Senhor teu Deus’”. Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de
Jesus, para retornar no tempo oportuno.”». (Lc. 4,1-13)
Iniciamos
o tempo da Quaresma, o tempo de quem está disposto a renovar o caminho
da fé. É o re-início, ou até para alguns, a re-descoberta do entusiasmo
que nos fez dar o primeiro passo em direção Àquele que sempre nos
atrai.
É
também o momento em que olhamos sobre nós mesmos, sobre o que
verdadeiramente queremos fazer da nossa vida. É o tempo da tomada de
consciência e aceitação dos nossos limites e de renovar a certeza de
que Deus ama também os nossos limites. É enfim, um tempo de conversão.
Essa palavra vem de uma expressão grega que indica “mudança de ponto de
vista” . Em latim é “con-vertere”, (“convergir”, diríamos
nós). A Quaresma é isso: um momento para mergulhar no mais profundo do
nosso “eu” e perguntar a nós mesmos sobre o que fazemos com a Palavra
que recebemos de Deus. É voltar a ser o “homem-diante-de-Deus” -para
usar uma expressão Bíblica.
Ao
ler o trecho de Lucas, num primeiro momento temos a impressão de que
nos mostra uma vitória de Jesus contra as forças do mal. Na verdade o
texto é uma síntese das tentações que Jesus viveu no decorrer de toda a
sua vida e que Lucas concentrou num evento único. Também aqui não
estamos diante de uma reportagem histórica, feita por um jornalista que
presenciou o desafio entre Jesus e o diabo… Estamos, sim, diante de uma
página de catequese, cujo objetivo é ensinar-nos que Jesus, como nós,
sentiu as tentações. Ele também sentiu a tentação de prescindir de Deus
e de seguir um caminho humano de êxitos, de aplausos, de poder e de
riqueza; no entanto, Ele soube dizer não a todas essas propostas que O
afastavam do plano do Pai. Contrariamente a um certo moralismo que vê a
tentação como uma fraqueza do nosso caminho, ela não é um acidente do
percurso: é o próprio percurso da vida de um homem.
Também aqui, em nosso texto, a tentação é associada diretamente ao
Espírito, não é um “teste” do Pai para conhecer a fidelidade do Filho
(Jesus não precisava disto e nem o Pai, seria absurdo pensar o
contrário). É o caminho do Espírito. Isso se torna evidente se
considerarmos que o trecho de hoje é colocado logo após o batismo de
Jesus, quando Ele é declarado “Filho amado”. Ora, São Paulo vem em
nossa ajuda dizendo-nos que: «Todos os que são guiados pelo Espírito são filhos»
(Rm. 8,14) o que, em outras palavras, significa que quem Deus reconhece
como filho é movido pelo Espírito. Então, assim como aconteceu com
Jesus, todo fiel que adere a Deus, recebe a mesma proposta: ser
conduzido pelo Espírito.
Esta característica do Espírito de Santidade é descrita por João Paulo II com estas palavras: «È exatamente em relação a esta profundidade abissal do homem, da consciência humana, que se cumpre a missão do Espírito Santo» (Dom. Viv. 45).
O Espírito conduz à conversão que nasce no mais profundo de cada pessoa
humana, para que possa ver somente a si mesmo, sem desculpas ou
justificativas, num “deserto” onde conflitam o nosso agir e o estilo de
Deus agir. E ali encontramos o que Jesus encontrou: a fome, símbolo de
nossa natureza, que nos coloca no lugar que nos pertence, que é capaz
de por fim a qualquer resistência e força... como nos dizendo que não
somos deuses mas pessoas humanas. Encontramos o desafio a Deus, ou
seja, pretender que Ele use o nosso parâmetro e nos convença.
Pretendemos que nos dê algo; pretendemos que Ele nos dê, de uma vez por
todas, a certeza daquilo que estamos fazendo ou vivendo. Mas não é
assim, a fé é um caminho lento ao qual sempre poderemos responder com
liberdade.
O Evangelho evidenciou em Jesus a imagem de todo homem e nos indicou
assim, o caminho para podermos transformar situações negativas em
positivas: a resposta que Jesus deu às investidas do mal sempre foi
embasada sobre a Palavra de Deus. Esta dá as respostas que Deus quer
dar às dificuldades. O demônio oferece sempre outros tipos de
repostas..., também possíveis. É só escolher.
ato
que “separa” (a palavra “diabo” -do grego, dia ballw,- significa: “que
separa”). Isto acontece quando a dificuldade e o questionamento geram
aquela atitude que, aqui, é descrita três vezes com a mesma conjunção: «se...».
Ou seja, quando colocamos condições a Deus, quando pretendemos que Ele
restrinja o seu proceder à nossa lógica. No momento em que dizemos «se...»
a Deus, renunciamos a segui-Lo e pretendemos que Ele nos siga. Mas Deus
possui uma sua lógica então a conseqüência é que nós nos “separamos”
Dele. Por isso é que o «se...», como bem é evidenciado neste trecho do
Evangelho, é da boca do demônio pois, enquanto a pessoa se ilude, tendo
a sensação de ter o poder e de colocar condições até Deus, na verdade
está realizando o primeiro passo que isola o homem em si mesmo. Quantos
mais “se...” colocarmos na nossa vida, tanto mais estaremos sozinhos. E
isto é o inferno. O “se...” pretende que a vida seja como nós a
imaginamos, mas ela é o que é, existe antes de nós e continua depois de
nós. Dizer “se...” a Deus é colocar-se no lugar que compete a Ele, é
“sentar no trono de Deus”, como dirá São Paulo aos Tessalonicenses; é o
sinal do “inimigo”, do anti-Cristo, pois em Jesus houve «somente o sim» (2Cor. 1,19).
A
situação de vida, na qual o fiel pode escolher entre seguir a Deus ou
querer de ser seguido por Deus, na Escritura é chamada tentação ou
“prova”. Obviamente, mais do que ser um sórdido atentado à integridade
do caminho de fé, a tentação é uma situação existencial que faz viver
ao discípulo um profundo ato da liberdade. É o momento em que este está
face a face consigo mesmo, diante seu coração. E ali, naquela profunda
liberdade, pode decidir. Neste momento ele pode renovar a sua força de
aderir a Deus. É por causa desta visão que o trecho das “Tentações” de
Jesus é colocado bem no início do caminho dos domingos de Quaresma.
Todo dia pedimos a Deus que Ele nos ajude a não “cair na tentação”, a
não renunciar, a não exigir que o Senhor use os caminhos que nós
desejamos, mas que sejamos sempre capazes de seguir os seus caminhos,
mesmo que aparentemente “irracionais”.
Contrariamente a um certo moralismo que vê a tentação como uma fraqueza
do nosso caminho, ela não é um acidente do percurso: é o próprio
percurso. Veja-se, por exemplo, quando Deus chamou Abrão; o próprio ato
de chamar foi indicado pelo Escritor do Gênese como uma “tentação”: «Deus provou Abrão dizendo: “Abrão, Abrão”. Ele respondeu: “Eis-me aqui”»
(Gen. 22,1) e deste diálogo nasceu a nossa fé. Na grande maioria dos
casos a Escritura tem uma visão positiva e vê neste agir de Deus um
momento em que Ele se faz sentir mais perto. Às vezes a tentação é
sentida como um ato de atenção por parte de Deus, como no caso de
Judite: «Irmãos, além do mais, agradeçamos a Deus que nos tenta assim como já o fez com os nossos pais.» (Jdt. 8,25) ou do Salmista da qual sente falta: «Examina-me, Senhor e prova-me; sonda-me o coração e os pensamentos.» (Sal. 26,2) para conhecer a verdade sobe a sal relação com Deus.
Também aqui, em nosso texto, a tentação é associada diretamente ao
Espírito, não é um “teste” do Pai para conhecer a fidelidade do Filho
(Jesus não precisava disto e nem o Pai, seria absurdo pensar o
contrário). É o caminho do Espírito. E isto é tanto mais evidente se
considerarmos que o trecho de hoje é colocado logo após o batismo de
Jesus, quando Ele é declarado “Filho amado”. Ora, São Paulo vem em
nossa ajuda dizendo-nos que: «Todos os que são guiados pelo Espírito são filhos»
(Rm. 8,14) o que, em outras palavras, significa que quem Deus reconhece
como filho é movido pelo Espírito. Se o Batismo foi a declaração de
Jesus como Filho, o ato com o qual Deus O reconhece é a tentação: o
longo caminho do Espírito que continuamente e eternamente faz a
comunhão.
Então, assim como aconteceu com Jesus, todo fiel que adere a Deus,
recebe a mesma proposta: ser conduzido pelo Espírito.
Ora, aonde conduz o Espírito de Deus? Por quais caminhos Ele gera
comunhão com o Pai? Aqui o texto nos indica explicitamente quais
maninhos Ele percorre. O Espírito conduz no mistério mais profundo do
coração do homem a fim de que este se conheça e conhecendo-se como de
fato é, possa dar a resposta mais livre e incondicional ao amor de
Deus. O Espírito não camufla, não esconde, não ilude com sensações e
emoções, Ele «conduz», isto é,
passo a passo, pacientemente, faz encontrar o fiel consigo mesmo, com o
mais profundo do seu “eu” onde pode convergir com todas as suas forças,
se amar assim com é e ser livre para doar-se. Esta característica do
Espírito de Santidade é descrita por João Paulo II com estas palavras: «È exatamente em relação a esta profundidade abissal do homem, da consciência humana, que se cumpre a missão do Espírito Santo»
(Dom. Viv. 45). Conduz à conversão que nasce no mais profundo do
próprio mundo interior de cada pessoa humana. O Espírito nos conduz,
cada um sozinho para que possa ver somente a si mesmo, sem desculpas ou
justificativas, quase que num “deserto” onde conflitam a divergência
entre o nosso agir e o estilo de Deus agir. E ali encontramos o que
Jesus encontrou: a fome, símbolo de tudo quanto nos faz conhecer a
nossa verdadeira natureza, que nos coloca no lugar que nos pertence,
que é capaz de por fim a qualquer resistência e força... Nos diz que
não somos deuses mas pessoas humanas. Encontramos gosto no poder, gosto
maior do que o da riqueza, pois a riqueza é privilégio de alguns, o
poder está nas mãos de todos; todos têm o seu poqueno-grande poder. O
poder sempre nos diz quem somos, independentemente da dimensão que este
tenha. Quando procuramos ou servimos o poder sabemos que estamos dando
início ao culto do nosso “eu”. Encontramos, no abismo do nosso mundo
interior o desafio a Deus, ou seja pretender que Ele use o nosso
parâmetro e nos convença. Pretendemos que nos dê algo; pretendemos que
Ele nos dê, de uma vez por todas, a certeza daquilo que estamos fazendo
ou vivendo. Mas não é assim, a fé é um caminho lento e cheio de
questionamentos aos quais sempre poderemos responder com liberdade, e
assim fazendo fortaleceremos o nosso amor, o qual nos conduz a o que
Deus é.
O Evangelho evidenciou em Jesus a imagem de todo homem e nos indicou
assim, o caminho para podermos transformar situações negativas em
positivas: a resposta que Jesus deu às investidas do mal sempre foi
embasada sobre a Palavra de Deus. Esta dá as respostas que Deus quer
dar às dificuldades. O demônio oferece sempre outros tipos de
repostas..., também possíveis. É só escolher.
28/02 – II Domingo da Quaresma: TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Aconteceu
que, cerca de oito dias depois destas palavras, Jesus levou consigo
Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava,
seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e
brilhante. Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram
Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam
sobre o seu exodo que iria cumprir em Jerusalém. Pedro e os
companheiros estavam com muito sono. Todavia permaneceram acordados e
Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam
com ele. E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus:
“Mestre, é bom estarmos aqui. Faremos três tendas: uma para ti, outra
para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava dizendo.
Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com
sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem.
Da nuvem, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido.
Escutai o que ele diz!”. Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se
sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a
ninguém nada do que tinham visto». (Lc. 9,28-36)
O
trecho do Evangelho desta semana nos ajuda a caminhar em direção à
Páscoa. Nos convida a refletir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa
conversão à vida nova de Deus. Na semana anterior refletimos sobre as
tentações de Jesus. A tentação que para muitos de nós é sinal de
fraqueza, na verdade é um momento de grande liberdade do homem que
alimentado pela Palavra de Deus, aprende a se conhecer, a amar, e a
responder a Deus.
A
tradição associou as tentações de Jesus a uma montanha. Num monte
(Gólgota) Jesus será crucificado e tambem num monte vai ocorrer a Sua
ascenção. Isso tem um significado especial para o evangelista como para
todo judeu: A montanha no mundo bíblico, é o lugar aonde o homem
se encontra com Deus. E´o lugar que está no “meio” entre o céu e a
terra. É também na montanha que Deus Se revela ao homem e lhe apresenta
os seus projetos.
Há no texto um trecho anterior muito importante que infelizmente a leitura do domingo omite: «Aconteceu que, cerca de oito dias depois destas palavras...». Quais palavras?
Nesse dia, Pedro tinha “caído” na tentação, aliás a mesma terceira
tentação de Jesus, de que o Messias poderia convencer a todos, através
de grandes milagres de que era o Messias. Jesus entao tinha repreendido
Pedro, recordando que este modo de pensar é o pensamento de
Satanás e não de Deus! Assim como Pedro, qualquer cristão
facilmente cai na tentação de se deixar lisonjear ….
No evangelho deste domingo, Jesus chamou à parte Pedro e os dois irmãos, as “colunas da Igreja”
(Gal. 2,9), para conduzi-los fora daquele “tempo”. Um tempo que vai
existir para as “novas criaturas”, aquela que se manifesta no homem que
segue o caminho de Jesus, percorrido pelas três “montanhas” e se
deixando envolver pela “glória” do Senhor. E esta nova criatura
reconhece como no texto de hoje, a mesma voz que reconheceu Jesus como
Filho de Deus em seu Batismo.
A cena que se nos apresenta mostra então dois homens que estão conversando com Jesus. «conversavam sobre o êxodo, que Jesus iria cumprir em Jerusalém».
Um novo êxodo, diferente daquele de Moisés. O êxodo que Jesus realiza é
a possibilidade de libertar o homem das angústias e dos limites que o
impedem de confiar em Deus. Em suma: libertá-lo dos limites daquele
“tempo” e tentações que pertencem ao demônio, o mesmo “tempo” e
tentações que confundiram Pedro.
O
Evangelho faz questão de realçar que Elias (Elias foi sempre enaltecido
pelo judaísmo como o maior ente os profetas) e Moisés são revestidos de
glória. A palavra “glória”, na Escritura, é sinônima de manifestação da
presença de Deus. A glória que Moisés e Elias possuem naquele momento
indica um aspecto de Deus. O aspecto legalista, daquele que segue
a “lei”, privilegiando o caminho moral, ético, racional... A “glória”
que Jesus oferece é outra coisa: é contemplação. É um deixar-se
envolver pelo fascínio de sua presença, simbolizado por uma “nuvem”
como algo impalpável mas verdadeiro.
A cena narrada também nos mostra Pedro e os outros «com sono».
A sonolência, a apatia, a falta de entusiasmo, de capacidade de
arriscar, a comodidade, são os sintomas de uma doença que pode afetar a
caminhada com Jesus. Todos nós estamos sujeitos ao “sono” da nossa
fé, «Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus»; no entanto, o texto original não diz que eles adormeceram, pelo contrário! Literalmente diz: «Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Todavia permaneceram acordados e viram a glória de Jesus».
O “sono” também é simbólico no sentido de não querer entender que a
“glória” do Messias tenha de passar pela experiência da cruz e da
entrega da vida; a construção das “tendas” (alusão à “festa das
tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus
habitou em “tendas, no deserto) significa que os discípulos
queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, de festa,
ignorando o destino de sofrimento de Jesus.
Mas no texto, os três não dormiram, não obstante o sono e, por isso,
viram. Viram Jesus como realmente é, não como anteriormente Pedro O
imaginava, ou queria que Ele agisse, quando sua mente estava presa pela
dimensão humana.
14/03 – IV Domingo da Quaresma – PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
Primeira Leitura: Js 5,9a.10-12
Segunda Leitura: 2Cor 5,17-21
Evangelho: Lc 15,1-3.11-32
«Os
publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os
fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem
acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. Então Jesus contou-lhes
esta parábola: “Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao
pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os
bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era
seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida
desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande
fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Então foi
pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar
dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos
comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: ‘Quantos
empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome.
Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra
Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a
um dos teus empregados’. Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando
ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao
encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse:
‘Pai, pequei contra o Céu e diante de ti. Já não mereço ser chamado teu
filho’. Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor
túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias
nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete.
Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e
foi encontrado’. E começaram a festa. O filho mais velho estava no
campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança.
Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O
criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho
gordo, porque o recuperou com saúde’. Mas ele ficou com raiva e não
queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu
ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a
qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com
meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com
prostitutas, matas para ele o novilho cevado’. Então o pai lhe disse:
‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era
preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e
tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado’. »
O
texto de hoje, uma das mais comoventes páginas do Novo Testamento, nos
ajuda a compreender o porquê, a razão de fundo que rege e motiva a
conversão. Obviamente esta não tem sentido em âmbito cristão como
simples esforço de ascese, superamento dos próprios limites,
aperfeiçoamento ético... O Evangelista nos sugere uma motivação maior,
capaz não somente de fazer com que o homem responda ao apelo a sair
fora de seu mundo, mas lhe dá também a força para fazé-lo. “Saber
que...” não é a mesma coisa que ter a “força para...”, e disto nós
sempre fazemos experiência. O “imperativo categórico” (I.Kant: A metafísica da moral)
pelo qual “querer é poder” nem sempre corresponde à nossa realidade
quotidiana; pelo contrário, na maioria das vezes sabemos qual deveria
ser o caminho a percorrer, no entanto, a experiência que fazemos é
completamente outra. Parece um círculo vicioso que com frases
lapidárias São Paulo confessa aos cristãos de Roma: «Nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que quero e sim o que detesto»
(Rm. 7,15). De fato, quem de nós, porquanto tenha dito a si mesmo “isto
não vou mais fazer”, de fato antes ou depois não acaba repetindo o
mesmo erro embora sob forma diferente? Contudo, existe alguma coisa,
uma motivação tão forte que, uma vez que penetra o coração, é capaz de
dar a força para a conversão, mesmo passando por caminhos estranhos e
imprevistos. E esta força nos é sugerida hoje. Vejamos como o
Evangelista nos ajuda a descobrir tal sentimento, sem a pretensão de
alcançar a amplidão do texto.
Sabemos que não estamos diante de uma alegoria ou uma metáfora sobre a
necessidade da conversão. Jesus não inventou uma fábula; vários
pequenos detalhes nos sugerem que Jesus tenha se inspirado a um fato
ocorrido, obviamente enriquecido com uma série de ensinamentos. Um
detalhe significativo para isto é que a narração não identifica o pai
dos jovens com Deus, pois assim lemos: «Pai, pequei contra o Céu e diante de ti»;
existe uma distinção entre o pai e Deus. É Jesus quem estabelece uma
analogia: tal como o pai dos dois, assim é Deus, o Pai. Em jogo, nesta
parábola, está o tipo de relação que estabelecemos com Deus,
representada pelos dois jovens. Ambos são filhos e possuem com o pai a
mesma relação essencial. Ambos são filhos, mas possuem uma relação
existencial diferente, ou seja, vivem esta filiação em condições
diferentes: um é o primogênito, a este, pelo direito da época, iam dois
terços da herança, enquanto ao mais jovem cabia somente um terço. A
transferência da herança podia ser efetuada também enquanto o pai ainda
estava vivo, mas o usufruto não podia ser administrado por nenhum dos
herdeiros enquanto o pai estivesse vivo. O mais jovem, então pediu algo
inusitado, embora ele considere “sua” a parte de herança, esta não lhe
pertence de fato mas somente de direito. Profundos conhecedores do
ambiente oriental afirmam de não conhecer precedentes de situações como
esta narrada por Jesus; isto nos leva a pressupor que o próprio Jesus,
elaborando esta história, quis nos dar uma indicação sobre o “seu” Pai:
é um Pai que surpreende, como veremos mais adiante.
O jovem fez um pedido lógico mas absurdo.... e o pai atendeu! Mesmo
quebrando as regras o pai transpôs as leis estabelecidas, deixando
pasmos os familiares e os bem-pensantes (para os quais Lucas dirige
esta parábola; cfr. Lc. 15,2). Assim fazendo, o pai renunciava ao seu
direito em favor de um capricho -infundado- do filho. Assim é o Pai de
Jesus, não é um rival do homem, não concorre com ele, o Seu amor não se
deixa embrenhar pela teia do “certo e errado”. É um Deus capaz de
arriscar no homem, mesmo sabendo que nem sempre este é capaz de
administrar hoje aquilo que lhe será confiado como valor definitivo
mais tarde. Um homem que, no caso, “sabe” de ser filho de Deus, mas não
sabe o que isto significa. O Pai de Jesus respeita o homem em sua
liberdade, mesmo quando isto implique em sofrimento que poderia ter
sido dispensado.
O jovem achava que o seu relacionamento com o pai estivesse privo de
liberdade, e buscou na independência a liberdade. Todavia, bem cedo
descobrirá que liberdade não tem nada a ver com independência. A
independência é fácil de alcançar, não é assim quanto à liberdade. Para
obter a independência é só eliminar alguns obstáculos externos, mas a
liberdade se conquista a partir do interior de nossa existência e isto
é bem mais complicado. A independência está fora de nós, a liberdade
está dentro. Foi assim -confundindo as duas coisas- que o jovem caiu na
armadilha, certo de que, tendo os recursos necessários, conseguiria
alcançar a sua independência e, com esta, a felicidade.
De coração apertado, o pai permitiu ao jovem de trilhar o caminho que desejava.
Parece entrever, nesta história, a história de uma humanidade que optou
por prescindir de Deus, que acredita estar em condições de resolver
sozinha a própria vida e, por outro lado, parece ver a paciente espera
de Deus, a sua tristeza quando alguém interpreta como falta de
liberdade a relação com Ele. Paradoxalmente, para o jovem, a quebra de
uma relação significava a felicidade; a fuga era interpretada como
libertação e auto-realização.
Estamos aqui diante do primeiro ato do pecado: cultivar em nós um
conceito de relação com Deus que não corresponde à realidade. Isto
acontece quando nós nos colocamos como sendo o eixo sobre o qual tudo
roda. Assim, ao invés de perguntarmo-nos “quem sou eu para Deus?”
invertemos as posições: “quem é Deus para mim?”. Aqui, nos somos o
centro, a medida e o fim de tudo, inclusive da relação com Deus.
A parábola continua narrando o aparente sentido de liberdade que o
jovem vivia: não precisava prestar contas a ninguém, árbitro de si
mesmo e de seus desejos, livre de realizar o que quisesse... é a
história de muitos. Mas aconteceu o imprevisto: a carestia. Algo
superior ao querer ou não querer do homem. É assim, de fato a vida tem
sempre um momento imprevisto que nos envolve em todas as nossas
dimensões, mais forte de nós e superior a nós mesmos por quanto o
queiramos negar. O imprevisto sobrevém com toda a sua carga. É, então,
nestas circunstâncias que nos descobrimos realmente por aquilo que
somos; descobrimos se possuímos ou não um tesouro, se temos ou não os
meios necessários para não sucumbir diante do inesperado. O jovem teve
que descobrir que a sua era uma simples, presunçosa, ilusão. A vida é
objetiva, não é uma fantasia.
A fome reconduziu o jovem ao essencial: «voltou em si mesmo».
Assistimos a um precipitar dos eventos. Um contra-senso: aquele que
achava de não ser livre, porque estava junto com um pai do qual havia
construído uma imagem distorcida, de repente se via servo de porcos,
animais impuros aos quais administrava o alimento, isto é, aquilo que a
ele mesmo faltava. É a descrição da degradação à qual se submete
qualquer pessoa que decide quebrar a relação natural com Deus
colocando-se a si mesmo no lugar do Altíssimo. Todo dia o jovem era
obrigado a fazer o que lhe causava repugnância, nojo. E mais, precisava
comer escondido, roubar, agir contra seus princípios... tudo porque
sobreveio a carestia que lhe mostrou a verdade. Quanto é bom, como é
libertador quando Deus nos mostra a verdade sobre nós mesmos! Como não
O agradecer?
A volta, sofrida, revelou ao jovem também a verdade sobre o seu pai.
Dos muitos aspectos do processo de retorno, descritos na parábola,
sempre fiquei encantado com um detalhe com o qual Jesus enriqueceu a
narração: «o pai correu». Mais uma vez o Pai de Jesus se
revela capaz de surpreender o homem, e isto é tanto mais evidente
quando constatamos que, na cultura médio-oriental nunca, nunca um homem
“corre” ao encontro de alguém; é um ato considerado impróprio, é uma
desonra no ambiente oriental. Um homem sempre espera, principalmente se
este está em sua casa. Não creio que isto precise qualquer comentário,
o qual simplesmente empobreceria a riqueza do gesto. O Pai «corre»,
novamente surpreende a todos, como no início da narração, como fará com
os dois irmãos e como faz conosco quando escolhemos a humildade,
renunciamos à nossa mente e aderimos ao nosso coração. Corre, corre
porque a felicidade Dele não lhe permite enxergar mais nada a não ser o
filho. Uma felicidade prorrompente que desfaz todas as expectativas
plausíveis.
Não importa qual tenha sido a vida do jovem, não importa por quais
caminhos ele se encontrou com o pai, fato é que o filho mudou a sua
visão sobre o pai e com esta o seu relacionamento.
Estamos aqui diante de uma boa motivação para a conversão: a felicidade do pai.
A conversão não é para nós, mas para a felicidade Daquele que tanto nos
ama a ponto de não ver nada mais do que nós mesmos, não ver o passado
nem os caminhos que trilhamos. Ele só vê a nós mesmos. Um filho, para
um pai, é bem mais daquilo que este possa ter feito. O Pai de Jesus
também olha para aquilo que somos, a sua alegria é tamanha que não vê
nada mais do que o que deseja ver: um filho.
Assim, escolher para a conversão, é o reconhecimento do amor paciente
do Pai que vê mais do que nos possamos ver em nós mesmos. Acreditar
realmente que Deus não nos vê como nos vemos e assim projetarmo-nos na
visão que Deus tem sobre nós mesmos. Ninguém escolhe a conversão
somente por força de uma motivação ética ou de necessidade moral; mas a
vontade de ver a pessoa que amamos feliz, esta sim pode nos dar a
coragem e a força para adequar o nosso mundo ao mundo de Deus. Ver a
realidade com o olhar de Deus é amor, é vontade de retribuir ao Pai,
dando-Lhe a alegria de perceber que o filho se sente sempre filho.
Somente o amor que gera alegria é capaz de fazer o homem transcender a
si mesmo.
Que o nosso “sim” a Deus, nesta Quaresma seja sempre movido pelo amor,
um amor de reciprocidade que, por um lado sabe que o nosso Pai nos
acolhe sempre e em qualquer circunstância pouco se importando com o
julgamento dos bem-pensantes, por outro lado um amor capaz de devolver
felicidade ao Pai que, finalmente, consegue ter com o filho a relação
que sempre desejou.
21/03 – V Domingo da Quaresma – JESUS NÃO VEIO PARA CONDENAR
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Jesus
foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo.
Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los.
Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher
surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus:
“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés,
na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”. Perguntavam
isso para experimentar Jesus e para terem motivo de acusá-lo. Mas
Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como
persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós
não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. E, tornando
a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que
Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus
ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus
se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles?” Ninguém te condenou?”.
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não
te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.» (Jo.
8,1-11).
Na
medida em que o Evangelho de João se tornava um ponto de referência
para a s comunidades cristãs da Ásia Menor, alguns episódios da vida de
Jesus foram sendo acrescentados para que se pudesse ver melhor a grande
novidade que a fé cristã estava trazendo ao mundo. Eis a que um destes
episódios, a novidade da fé cristã é bem evidenciada e de uma forma
realmente incompreensível para as pessoas acostumadas a se relacionarem
com Deus em base a códigos de comportamento. Quantas injustiças são
cumpridas em nome de um código de lei! Quantas pessoas foram mortas e
ainda são mortas em nome da fidelidade a uma lei, mesmo que esta seja o
reflexo de uma autêntica vontade de Deus, assim como se vê nos escritos
das grandes religiões. O trecho é encaixado propositadamente dentro de
uma série de capítulos nos quais Jesus se revela como Messias e como
Filho de Deus; é colocado durante o último período que Jesus passa em
Jerusalém, período no qual, à mais clara revelação que Ele faz de si
mesmo corresponde a definitiva recusa por parte das autoridades
religiosas com o desfecho da morte de cruz. Jesus se revelava como
“fonte de água”; como “luz do mundo”; como “Filho de Jahvé”; como “bom
pastor” e assim por diante, através de uma série de imagens bem
conhecidas pelos hebreus. Mas como não mostrar o lado mais escandaloso
de Deus que é a Sua misericórdia?
Jesus costumava passar a noite fora de Jerusalém, no monte Oliveiras,
logo de manhã foi para o Templo, é aqui, dentro do pátio do Templo que
se dá a cena descrita. Obviamente os primeiros cristãos que relembraram
esta história e a consignaram no Evangelho de João captaram
imediatamente a ligação do episódio com um trecho do Profeta Jeremias
(que citaremos mais adiante) que declara o estupor que Deus provoca
quando age de modo incompreensível para os homens. Ali, no pátio,
sentado, Jesus indicava aos ouvintes um rosto de Deus novo, mais
humano; mas, como sempre acontece, o que não está protegido por
estruturas é bem mais frágil, sujeito a questionamentos nem sempre bem
intencionados. Eis que se apresentaram então os defensores da lei,
Escribas e Fariseus pelos quais o encontro com Deus se dá pelo
cumprimento da vontade de Deus expressa em fórmulas, em casos. A
situação era propícia: Lei (Lv. 20,10; Dt. 22,22.24) era clara: uma
mulher surpreendida em adultério deveria se apedrejada (o
apedrejamento, ainda em uso no Médio Oriente e na religião Islâmica, é
uma forma infamante de matar uma pessoa, é típico do gesto que se faz
para um cão que é afastado). Morte e desprezo, orgulho de “justiça
feita” e vingança, se misturavam naquele momento; o que faria aquele
“Mestre”? Se tivesse dito: “apliquem a Lei” então teria demonstrado que
não estava trazendo nada de novo e que, bem no fundo a dele era somente
uma aparência; se tivesse dito: “não apliquem a Lei”, então teria
mostrado o seu desprezo pela Escritura, logo não poderia ser aquele que
pretendia de ser.
Uma mulher, envergonhada diante de uma situação que desvelava a todos
aquilo que queria manter oculto; talvez um relacionamento no qual
buscasse algo a mais daquilo que havia encontrado no homem com o qual
estava casada. Uma ilusão? Um momento? Uma fuga? A busca de um tempo
para si? Tudo isto ou nada disso, nunca poderemos saber o que conduz
uma pessoa a errar deste modo. O erro é erro e não se compactua com
ele, mas também o julgamento fácil está no mesmo nível. Eram dois a se
aproveitar daquela mulher, do seu pecado, da sua busca no alvo errado.
O seu companheiro e o grupo dos fariseus a usaram, cada um pelo que lhe
interessava. Ali estava sozinha, decepcionada, deixada à mercê das
acusações e sem apoio formal do homem com o qual havia vivido alguns
momentos de intimidade, ele estava mais protegido pela lei do que ela:
porque não aproveitar? Haveria algo melhor para colocar Jesus na
parede? Era isto que os fariseus precisavam, o que iria acontecer com a
mulher era de relativa importância, e do mesmo modo a aplicação da Lei,
mas a ocasião era única! Usada, usada e deixada sozinha por causa do
seu erro por causa do seu pecado. A pergunta dos fariseus não via a
mulher como pessoa, mas como “categoria”: «... tais mulheres ».
A pessoa desaparecia diante do pecado que havia cometido; diante do que
cometeu o seu valor era aniquilado, pois o que havia feito parecia ser
superior a o que uma pessoa é. Não parece ter sido assim o
comportamento de Jesus durante a sua vida, a pessoa vale muito mais do
que ela faz, porque a pessoa foi feita por Deus e o mal que ela faz não
vem de Deus. Amar a pessoa é amar a obra de Deus, custe o que custar.
A reação de Jesus é incompreensível, parece não se pronunciar, como se
não quisesse rebaixar o nível da revelação que Ele faz quanto ao amor
de Deus. Não lha para eles, gesto próprio de quem não quer conversa de
palavras. Contudo, não deixa Jesus de dar a sua resposta. É um gesto
estranho, compreensível somente a pessoas expertas na Escritura, como o
eram fariseus e escribas. É inspirado a um trecho de Jeremias
emoldurado no Templo de Jerusalém, e que diz assim: «Ó
Senhor, esperança de Israel! Todos aqueles que te deixam serão
envergonhados. O nome dos que se apartam de mim será escrito no chão.
Cura-me, Senhor, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és
o meu louvor. Eis que eles me dizem: Onde está a palavra do Senhor? Que
se cumpra! Mas eu não me recusei a ser pastor» (Jer. 17,13ss).
Aqui o Profeta vê Deus como “esperança de Israel”, no Templo onde se
encontra um pecador. Sim o pecado “envergonha” –diz Jeremias- o pecado
é pecado sim, mas este é diante de Deus como se escrito “no chão”, na
poeira que o dia seguinte o vento apagou; por isso a esperança e o
apelo do pecador podem brotar autênticos no coração do pecador: “Cura-me, Senhor, e serei curado, salva-me, e serei salvo”. Por isso que Deus é a esperança contra quem simplesmente diz: “Onde está a palavra do Senhor, que se aplique!”
julgando a aplicando uma lei que não vê a pessoa, mas visa preservar
princípios, porquanto válidos. Eis a resposta que Deus dá: “eu não me
recusei a ser pastor” a resposta é a decisão de Jesus de ser pastor,
que conduzir para a vida e não para a morte o pecador. Ora, são somente
o perdão e a misericórdia, encontrados inesperadamente no próprio
caminho, quando não são merecidos nem podem ser reclamados que vêem a
pessoa acima do ato cumprido; são esta misericórdia e este perdão que
fazem nascer o amor, que é vida, que é a vida que está em Deus.
Não creio que haja mais bonito comentário a este texto do que aquilo
que Santo Agostinho escreveu no seu comentário ao Evangelho de João: “ficaram somente em dois, a miséria e a misericórdia” (Iohannes Ev. Tract. 33).
E, neste terreno varrido pelo vento da misericórdia, Deus e o homem se
encontram de verdade. A misericórdia permite a qualquer pecador de
olhar para o futuro com coragem: «vai... não peques mais». Com esperança, com vida. O julgamento só faz olhar para o passado, o qual não pode ser modificado e não possui mais a vida.
28/03 – DOMINGO DE RAMOS – Leituras, Salmo e Evangelho
(A Instituição da Eucaristia)
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
1ª. Leitura: Is 50,4-7
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 21 (22)
2ª. Leitura: Filipenses 2,6-11
Evangelho: Lc 22,14-23,56
Com
a chegada de Jesus a Jerusalém chega-se ao fim do “caminho” começado na
Galileia. Tudo converge, no Evangelho de Lucas, para Jerusalém: é aqui
que surge a salvação de Deus.
«Eis
que virão dias, diz o Senhor, em que farei surgir para Davi um Rei novo
justo; e, como rei, reinará, e agirá sabiamente, e exercerá o juízo e a
justiça na terra.» (Jer. 23, 5).
Com estas palavras Jeremias dava voz aos desejos de Israel.
Era o sonho esperançoso de um povo que sempre associou a dignidade da pessoa humana à sua liberdade.
«Dominai sobre os peixes dos mares....», esta é a benção que Deus deixou ao homem. A palavra “dominus”
significa exercer o senhorio, a dignidade incomparável acima de
qualquer coisa criada por Deus ou feita pelo homem. Dominar, na
linguagem Bíblica não é sinônimo de despotismo, arbitrariedade, poder
absoluto.... “Livre para ser digno e digno para ser livre”,
este sempre foi o sonho de Israel, tão profundamente descrito no livro
de Êxodo, nas liturgias, nos cantos memoriais, nas histórias contadas
pelas mães de Israel às suas filhas enquanto, juntas, moíam o trigo na
soleira de suas casas. Será que os sistemas que o homem cria
possibilitam a realização deste sonho?
Sabemos
que para Lucas, Evangelista de cultura grega, aberto às instâncias
inovadoras da sociedade da época, a questão da justiça era de primária
importância. Tanto o mundo grego quanto o romano foram o berço do
sistema judiciário que ainda rege a maioria dos nossos Países. A
questão sobre o julgamento é posta em três momentos: o ingresso em
Jerusalém, o processo a Jesus, o julgamento da cruz.
Vejamos a primeira narração.
Jesus tem exata consciência de seus atos que são cumpridos de modo
quase ritual. Atos significativos que qualquer homem conhecedor da
Escritura poderia facilmente entender: desceu do Monte das Oliveiras,
no lado oriental da cidade de Jerusalém, atravessou o vale do Cédron e
se dirigiu à Cidade pela Porta Dourada. Narrado assim não parece
significar nada, mas todo hebreu esperava o Messias vindo do “oriente”
como vaticinado pelos antigos profetas; o próprio Simeão, quando
recebeu o Menino Jesus abençoou a Deus porque a sua velhice havia
tocado o “sol nascente que vinha ficar com seu povo” (Lc.
1,68ss). Segundo o profeta Joel (3,2.12) o Vale do Cédron representava
simbolicamente o lugar do julgamento final, onde seria decidida a sorte
do justo e do ímpio.
Evidentemente os gestos de Jesus foram perfeitamente entendidos pelo
povo de Jerusalém: Ele era o rei tão esperado que devolveria a
liberdade e zelaria pela dignidade. Mas… alguma coisa era estranha:
Jesus não havia escolhido a montaria própria de um rei. O gesto de
Jesus foi substituir o cavalo por um simples burrinho.
Mantos, palmeiras, aparente festa, no fundo foram o espetáculo exterior
que encobria uma grande tristeza no coração de Jesus, por ser resultado
de um profundo mal-entendido. Mais uma vez, o povo procurava um
ídolo mais do que uma pessoa, pois qualquer ídolo possui mais poder do
que uma pessoa: a pessoa pode ser calada e morta, um ídolo não. O
cortejo era festivo, mas cobria uma dor de Jesus, uma dor profunda que
o Evangelista João entendeu mais tarde e descreveu para os cristãos com
estas palavras: «Aquele que não reconhece a Deus que vem na sua fragilidade, na “carne”, este é o anti-cristo»
(Cfr.1Jo. 4,2). O povo acreditava no poder deste novo rei, mas o
próprio fato de acreditar no poder é característica específica do mundo
do mal. É fortalecer aquilo que somente oprime pois, no máximo, o poder
modifica o detentor do poder e nada mais. O Rei esperado para abrir uma
porta ao sonho de Israel vinha na sua impotência, mas ninguém
acreditou, continuando a gritar “Hosana”. O desprendimento, a humildade
e a simplicidade não eram valores apreciados entre as pessoas que
compunham a comunidade...
O
segundo momento das leituras, o julgamento diante do Sinédrio e a
situação de Herodes e Pilatos, é ainda mais paradoxal, é a apologia da
incoerência da justiça mandada pelo poder. O poder, neste ato, é a
própria lei manipulada para o fim que se deseja alcançar.
Sabemos que a reunião do Sinédrio, foi ilegal, convocada sem a presença
de autoridades como Nicodemos e José de Arimatéia (ambos favoráveis a
Jesus); foi convocado de madrugada, às pressas, assim como se faz toda
vez que a decisão está já tomada independentemente de qual possa ser o
desenvolvimento de um processo. Mas ninguém se importou com esta “lei”
que regulamentava o direito de um homem, não era relevante; a outra,
que condenava, era bem mais importante.
Durante o processo, cada uma das acusações apresentada contra Jesus
possuía o mesmo aspecto que, na Bíblia, caracteriza o demônio:
meias-verdades. Isto é, fatos, palavras realmente pronunciadas, mas
distorcidas, a ponto de que formalmente podem adquirir o significado
que o juiz quiser dar. Jesus falou realmente sobre o Templo, falou
realmente sobre um Reino que não é deste mundo, falou realmente sobre a
sua relação com Deus e muitas outras coisas; era um fato evidente.
Contudo a sua leitura é maligna. Mesmo assim nenhum dos envolvidos no
processo “considerou oportuno” declarar a verdade sobre o que estava
acontecendo. É o jogo do sistema, o Sinédrio não toma decisão, Pilatos
remete a Herodes, Herodes devolve para Pilatos, Pilatos precisa cobrir
alguns problemas pessoais com o Imperador…
Assim funcionava e ainda funciona o sistema que julga. Será um acaso,
que a instituição mais desacreditada junto ao nosso povo é a justiça?
Será que alguém já se “sentiu” protegido pela justiça? Será que esta
soube devolver a dignidade a alguém?
Os
poucos que poderiam se colocar ao lado de Jesus foram descartados “ex
oficio” diríamos nós. Nicodemos... José de Arimatéia... os grandes
rabinos como Gamaliel... Com extrema perspicácia o Evangelista releva
outro aspecto desta “justiça”: «daquele dia em diante Herodes e Pilatos ficaram amigos»,
e nós conhecemos bem as desavenças, os conflitos que anteriormente
existiam entre os dois, conflitos que chegaram até o Procônsul e o
Imperador...,
Temos,
então, o terceiro ato da narração: o julgamento da cruz. Este é o
julgamento que Deus profere sobre toda a humanidade. O que aconteceu
quando da cruz de Jesus, corresponde ao julgamento eterno que
Deus dá e dará sobre a humanidade e sobre cada um dos homens.
O texto diz que Herodes tinha dado a Jesus uma «veste pomposa»;
tratava-se de um manto próprio para grandes celebrações e,
propriamente, para o candidato a rei. Despido deste símbolo de
candidatura, Jesus endossou a coroa, se tornou rei, sim, mas não da
maneira esperada. A sua dignidade de rei será manifesta na decisão
assumir as conseqüências do seu amor aos homens e ao Pai até o último,
(bem o contrário do julgamento anterior). Trata-se da dignidade que se
demonstra quando somos livres para “dar”, que se evidencia na atitude
própria de quem supera o medo de “perder”: «ninguém tira a minha vida, eu a dou...»,
dizia Jesus. Ele é um rei que conseguirá, no último respiro, devolver a
dignidade às pessoas que se deixaram envolver e conduzir pelo coração:
um malfeitor, um centurião, algumas mulheres...
Se a coroa dos vencedores em Atenas e Roma era de louro, o símbolo da
glória; se a coroa do Farão de Egito era ornada por uma cobra, símbolo
do poder sobre a vida e a morte, a coroa de Jesus possuía os espinhos,
símbolo do resultado do pecado de Adão: a mesma terra que era um jardim
produz lágrimas, espinhos sofrimentos inúteis com o pecado do orgulho.
Assim, o rei de Israel não carregava a glória e o poder, mas o
resultado das atitudes dos homens quando desacreditam em Deus e querem
se colocar no lugar Dele. Carregava aquele sofrimento estúpido, que
derrama lágrimas produzidas pela presunção dos mais fortes. Contraste
total com Adão, que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu (cf. Gn
3,5.22): Jesus é o Homem Novo que responde com humildade e
obediência ao Pai. A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude
de Jesus trouxe exaltação e vida.
Em traços precisos.... a cena da “coroação” define o
“despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e
orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo
com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para
revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Mas não deixou de
ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos
homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento”
assumiu e sempre assumirá o papel de escândalo para a arrogância dos
homens: Ele aceitou uma morte infame – a morte de cruz – para nos
ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total
da vida.
Fatos curiosos e exclusivos do Evangelho de Lucas relativos a Paixão de Cristo:
•
No relato da instituição da Eucaristia, só Lucas põe Jesus a dizer:
“fazei isto em memória de Mim” (cf. Lc 22,19). A expressão não quer só
dizer que os discípulos devem celebrar o ritual da última ceia e
repetir as palavras de Jesus sobre o pão e sobre o vinho; mas quer,
sobretudo, dizer que os discípulos devem repetir a entrega de Jesus, a
sua doação da vida por amor.
•
Só Lucas coloca no contexto da última ceia a discussão acerca de qual
dos discípulos seria o “maior” e a resposta de Jesus (cf. Lc 22,24-27).
Jesus avisa os seus que “o maior” é “aquele que serve”; e apresenta o
seu próprio exemplo de uma vida feita serviço e dom. Estas palavras
soam a “testamento” e convocam os discípulos para fazerem da sua vida
um serviço aos irmãos, ao jeito de Jesus.
•
No jardim das Oliveiras, só Lucas faz referência ao aparecimento do
anjo e ao “suor de sangue” (cf. Lc 22,42-44). Esta cena acentua a
fragilidade humana de Jesus que, no entanto, não condiciona a sua
submissão total ao projeto do Pai; e sublinha a presença de Deus, que
não abandona nos momentos de prova aqueles que acolhem, na obediência,
a sua vontade.
•
Também no relato da paixão aparece a idéia fundamental que perpassa
pela obra de Lucas: Jesus é o Deus que veio ao nosso encontro, a fim de
manifestar a todos os homens, em gestos concretos, a bondade e a
misericórdia de Deus. Essa idéia está presente no gesto de curar o
guarda ferido por Pedro no Jardim do Getsemani (cf. Lc 22,51); está
também presente nas palavras de Jesus na cruz: “Pai, perdoai-lhes
porque não sabem o que fazem” – Lc 23,34 (é desconcertante o amor de um
Filho de Deus que morre na cruz pedindo desculpa ao Pai para os seus
assassinos); está, ainda, presente nas palavras que Jesus dirige ao
criminoso que morre numa cruz, ao seu lado: “hoje mesmo estarás comigo
no paraíso” – Lc 23,43 (é desconcertante a bondade de um Deus que faz de um assassino o primeiro santo canonizado da sua Igreja).
•
Todos os sinóticos falam de Simão de Cirene para levar a cruz de Jesus
(cf. Mt 27,32; Mc 15,21); no entanto, só Lucas refere que Simão
transporta a cruz “atrás de Jesus” (cf. Lc 23,26). Este dado serve a
Lucas para apresentar o modelo do discípulo: é aquele que toma a cruz
de Jesus e O segue no seu caminho de entrega e de dom da vida (“se
alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após
dia e siga-Me” – Lc 9,23; cf. 14,27).
(texto retirado e adaptado do comentário as leituras da Conferencia Episcopal Portuguesa)
Domingo de Páscoa
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
Primeira leitura– At 10,34.37-43
Salmo responsorial – Salmo 117 (118)
Segunda leitura – Col 3,1-4
Evangelho – Jo 20,1-9
«No
primeiro dia da semana, Maria Madalena foi bem cedo ao sepulcro, quando
ainda estava escuro, e viu que a pedra que o fechava tinha sido tirada.
Correu, então, à procura de Simão Pedro e do outro discípulo, aquele a
quem o Senhor amava, e lhes falou: “Retiraram do sepulcro o Senhor e
não sabemos onde o puseram!”. Pedro saiu com o outro discípulo, e eles
se dirigiram para o sepulcro. Os dois corriam juntos. Mas o outro
discípulo, correndo mais depressa que Pedro, chegou antes ao sepulcro.
Inclinando-se, observou os panos afrouxados; mas não entrou. Simão
Pedro chegou depois dele, entrou no sepulcro e viu os panos de linho
afrouxados. Mas o sudário que tinha sido ajustado à cabeça de Jesus não
estava afrouxado com os panos, mas enrolado exatamente no seu lugar. O
outro discípulo que havia chegado primeiro também entrou, viu e
acreditou. Pois, de fato, ainda não tinham compreendido que, segundo a
Escritura, ele devia ressuscitar dos mortos. Então os discípulos
voltaram para casa.». (Jo 20,1-9)
O texto começa com uma indicação aparentemente cronológica, mas que deve ser entendida sobretudo em chave teológica: “no primeiro dia da semana”.
Significa que começou um novo ciclo – o da nova criação, o da Páscoa
definitiva. Aqui começa um novo tempo, o tempo do homem novo, que nasce
a partir da doação de Jesus. A liturgia da semana Santa nos permitiu
sentir tudo o que estava no coração dos discípulos e de Maria naquela,
sexta-feira, em que os cordeiros eram imolados no Templo.
Sobre
a festa, a grande festa da Páscoa dos Judeus pairava naqueles dias um
obscuro sentimento que lhe havia tirado a marca alegre da libertação.
Fatos que fizeram da Cidade santa ser como que um cenário de tudo o que
acontece no mundo, onde sempre se defrontam o projeto humano e a oferta
de Deus. Jerusalém, um palco da história de sempre, dos fortes, onde o
orgulho consegue, sim, seus resultados..... mas resultados impregnados
de morte e injustiça.
Jerusalém
viu naqueles dias também a resposta à essa violência, viu a única
possível arma que derrota o mal em sua raiz: replicar ao mal com o seu
oposto, o bem. E foi o grande, último gesto de Jesus. Dar uma última
gota de amor e esperança para os que estavam perto, para os que olhavam
para Ele como se um sonho estivesse apagando seus sentidos;
anestesiando a razão, incapaz de suster o preço da injustiça. Terminava
o sábado, a festa dos Judeus, a festa da Páscoa do passado deixando
sim, perplexidade e perguntas no meio do povo quanto à legitimidade de
seus lideres, mas com a certeza de que mais uma vez estava garantida a
continuidade daquilo que sempre foi. Em Jerusalém repetia-se, naqueles
dias, o drama de Moisés: ele desejava conduzir seu povo rumo à
liberdade e à conquista de sua própria identidade mas, para os que
tinham o deserto diante dos olhos, as «panelas cheias de carne» (Ex. 16,3), os «pepinos e as melancias» do Egito (Nm. 11,5) continuavam a ser mais atraentes.
Fartos
e saciados, mas presos. Ou livres, renunciando a segurar as rédeas da
própria vida? É uma das mais radicais opções existenciais que sempre se
re-propõem a todo homem.
Mas se aquela sexta feira foi de dor e perpexidade... O dia do Sábado de Jesus foi só silêncio.
O dia de Sábado para Maria e os discípulos foi só silêncio.
Interrompido pelas últimas palavras do Messias que ressoavam em seu
íntimo: «Tudo está cumprido!» (Jo. 19,30).
Não
creio que outro trecho da Escritura nos possa descrever aquela noite de
Maria e dos discípulos, tão bem como o Salmo do qual permito-me extrair
alguns trechos, que convido a ler com calma, deixando que nos fale à
alma para sentir a alma daqueles que por últimos ouviram Jesus dizer: «Tudo está cumprido».
«No dia da minha angústia, procuro o Senhor;
erguem-se as minhas mãos durante a noite e não se cansam;
a minha alma recusa consolar-se.
Não me deixas pregar os olhos; tão perturbado estou, que nem posso falar.
Penso nos dias de outrora, trago à lembrança os anos de passados tempos.
De noite indago o meu íntimo, e o meu espírito perscruta.
Deus nos esqueceu para sempre? Acaso não tornará a ser propício?
Cessou perpetuamente a sua graça? A sua promessa, afinal, terá falhado?» (Sal. 76)
Assim como tantas vezes nos acontece. É como o sábado da nossa vida, que tanto nos aproxima de Maria e dos discípulos! «Deus se esqueceu?» «sua promessa terá falhado?». Até a oração, mesmo que incansável, parece não dar a resposta que esperamos, «erguem-se as minhas mãos durante a noite e não se cansam ».
Era assim que começava «o dia depois do sábado», do sábado dos judeus, do sábado daqueles que ainda preferiam as «panelas» do Egito. Garantias, segurança, controle...
Mas nasce, naquela noite, a comunidade de fé! Daqueles que mesmo em situações adversas, erguem as mãos e não se cansam.
Maria,
os discípulos, o silêncio, as “não-respostas”, a certeza de que Deus
não decepciona mesmo quando a mente e tudo o que se vê dizem o
contrário... esta era e ainda é o alicerce da comunidade de fé. Esta
comunidade de fé é o lugar onde Jesus havia prometido estar
definitivamente presente: seu “corpo” –como dizem o Apóstolo João e São
Paulo-.
O
dia depois do sábado dos judeus era o dia de Maria e dos discípulos, o
dia da comunidade de fé consignada nas mãos de seu Senhor; o dia
daqueles que ainda hoje desejam seguir com Maria e os discípulos aquele
“Moisés” definitivo, Jesus, que conduz à liberdade plena. O dia
daqueles que deixam o Espírito escrever nas entrelinhas de sua vida os
termos da Nova Aliança feita de amor e doação.
Naquele
amanhecer do domingo de Páscoa, também as últimas palavras de Jesus
foram revestidas de um significado novo, entendidas de forma plena. De
fato, «Tudo está cumprido», pode sim ser
compreendido como se Jesus estivesse olhando para o seu passado, para a
sua história de fidelidade ao Pai e ao homem. Contudo, não se pode
desconsiderar que na língua usada pelo Evangelista, a expressão possui
um significado de finalidade, de tensão para o futuro, de algo que não
está encerrado com o passado. Assim sendo, a última palavra do Filho de
Deus começou a ressoar de modo diferente nos corações da comunidade de
fé. Suas últimas palavras indicavam que aquele momento não encerrava um
passado, mas era o início de uma nova história na qual «tudo», tudo o
que o Pai desejou para o homem era possível. A última barreira
intransponível, a do o desamor, tinha sido destruída com a força do
amor que atrai todos os homens. A porta que dá acesso ao íntimo do Deus
da vida, fora removida assim como a pedra que pretendia sepultar a vida
sepultando Jesus.
«Tudo», tudo quanto Deus desejou para o homem já estava à disposição de quem o desejasse.
Aos cristãos de Éfeso Paulo escreve: «Junto com Ele, também nos ressuscitou e nos fez sentar no céu com Cristo»,
(Ef. 2,6) palavras tão arrojadas com as quais tenta explicar o que a
Páscoa é. É uma situação nova que modifica inteiramente a maneira de
qualquer pessoa se relacionar com Deus. De fato, uma coisa é
relacionar-se com Deus esperando alcançar algo, mesmo que seja o
“Paraíso”, outra é relacionar-se com Ele sabendo que o que desejamos já
nos é dado. A segunda maneira é a verdadeira religião, que é vida,
porque atitude de gratidão que nunca se esgota. É a liberdade de quem
dá sem limite, é vida eternamente.
São Pedro e São Paulo
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Tendo chegado à região de Cesaréia de Felipe, Jesus perguntou aos discípulos: “Quem dizem por aí as pessoas que é o Filho do homem?”. Responderam: “Umas dizem que é João Batista: outras que é Elias; outras, enfim, que é Jeremias ou algum dos profetas”. Então lhes perguntou: “E vós mesmos, quem dizeis que eu sou?”. Simão Pedro interveio e respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus retomou a palavra e disse: “És feliz, Simão Bar-jona, pois não foram a carne e o sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus! Pois, também eu vós digo: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as forças diabólicas não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do reino dos céus: Tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.» (Mt. 16,13-19)
A festa de hoje é uma celebração muito importante de nossa Igreja : a unidade na diversidade. Pedro e Paulo, dois personagens, duas histórias completamente diferentes, dois encontros com Jesus totalmente diferentes e que terminaram do mesmo modo: em Roma dando suas vidas para Quem lhes fez sentir seu amor.
O que uniu pessoas tão distantes? Por que, pontos de vista tão desiguais, não se transformaram em competição, afirmação da própria posição? Não vem aqui o caso de relembrar as histórias de Pedro e Paulo, bem conhecidas por todos. Mas alguns pormenores de suas vidas são bem esclarecedores.
Pedro era cidadão da Galiléia, região incômoda para o regime religioso–político da época pois tinha tendências separatistas. Pedro fazia parte deste povo, um cidadão comum, com sua família, sua estabilidade econômica, sua pequena vida de aldeia à margem do lago de Genezaré. Como muitos conterrâneos, provavelmente Pedro também seguiu Jesus vislumbrando nele o “esperado”, o líder que restauraria Israel. No coração do todo Galileu estava a expectativa de ver em Jesus o libertador poderoso, o profeta sob o comando do qual definitivamente Israel poderia afirmar sua independência de Roma.
Um dia, sem pedir permissão, Jesus entrou a fazer parte da vida de um homem qualquer num dia qualquer. Rompe os limites da vida de Pedro e o projeta num mundo infinitamente mais amplo do que os horizontes daquelas colinas. Os Evangelhos nos recordam a decisão que Pedro tomou, uma decisão que o acompanharia o resto da vida. Que voltou inúmeras vezes à sua mente toda vez que, ao longo da convivência com Jesus, se verificavam fatos e situações desafiadoras, diante das quais se apresentava como sempre atual a possibilidade de largar tudo e voltar à vida de antes, ao seu barco. Alguns destes momentos dramáticos nos são lembrados pelo apóstolo João: «À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna» (Jo.6,68).
Nestas, como em outras situações, Pedro faz memória, revive o momento inicial, o ímpeto instintivo do coração que não mede, somente vê Jesus. Pedro, homem que não mede, tanto no erro quanto no impulso de amor. Que chora e que recomeça sempre; capaz de aplicar em sua vida aquilo que tinha aprendido ao sair do limite de suas colinas e lagoas, para deixar-se levar (como nos recorda o Evangelho de João ao narrar o último encontro entre Pedro e seu amado Jesus) infinitamente. A memória daquele momento lhe dará a força de continuar, sempre, até o fim.
Ao lado dele, Paulo, fariseu formado na melhor escola rabínica da época, a de Gamaliel, zeloso da Palavra de Jahvé, a “Lei” na qual tinha toda certeza de se encontrar com Deus. Homem erudito, que falava as línguas mais importantes da época e sentia-se à vontade com as culturas dominantes, seus costumes, poesias, técnicas de oratória etc.
Um personagem seguro do caminho que trilhava para se encontrar com seu Deus... até o dia em que Deus quis se encontrar com ele. Foi o dia em que algo começou a desestabilizar suas convicções.... Lucas, companheiro de Paulo em suas viagens, discretamente nos dá uma indicação daquilo que começou a fazer desmoronar suas certezas adquiridas: um homem que morre perdoando, da mesma maneira que aquele Jesus que havia aprendido a combater.
«As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo» (At. 7,58) enquanto apedrejavam Estevão. A inversão de valores operada por Jesus no coração de Paulo o levará também a ultrapassar os limites de suas convicções. Daquele dia em diante seu coração aprendeu que a “lei”, a regra não salva ninguém. Ao contrário, Paulo é tão forte contra a mentalidade minimalista que a lei provoca naquele se prende à lei, a ponto de adjetivá-la de “maldita” (Gal. 3,13), pois esta somente tem o poder de indicar o certo e errado, sem ter a capacidade de gerar em nós aquilo que realmente salva, que é o amor gratuito. Daquele dia em diante o intrépido e seguro fariseu, descobriu-se como aquele que está no «último lugar» (1Cor. 4,9), «indigno de ser chamado apóstolo» (1Cor 15,9). A presunção de se salvar com as próprias forças deu lugar àquele estado de ânimo que Paulo chamava «graça», isto é a atitude de gratidão por ter sido objeto de um amor não merecido. A «graça», esta força movida pelo desejo de retribuir com amor ao amor recebido, será a força deste grande homem de Deus. Daquele dia em diante a segurança em si mesmo será substituída pela humildade de pedir a opinião de um pescador, “ignorante” (Lucas usa uma expressão que sugere que não soubesse ler e escrever: agrammatoi -At. 4,13) antes de se aventurar na pregação do Evangelho a fim de não correr o risco de ter trabalhado «em vão» (Gal. 2,2) isto é, por sua própria conta, sem a harmonia necessária ao anúncio do Evangelho. Paulo aprendeu a se gloriar de seus limites, de suas fraquezas para que fosse evidente a todos o tesouro que carregava em seu vaso de barro. Paulo, homem que se sentiu salvo, objeto da gratuita misericórdia de Deus e que quis entregar sua vida a fim de que seus irmãos, judeus e estrangeiros, fizessem a mesma experiência de amor gratuito. Amor que não pode ser alcançado pelas regras, pelas normas e leis, porquanto justas que forem.
Dois homens, duas histórias, o mesmo fim.
Ambos foram capazes de olhar o mundo com os olhos de Deus, capazes de esquecer as diferentes opiniões sobre um assunto ou outro porque em ambos, Jesus ocupava o centro do coração. Quando olhamos somente a Jesus, assim como ele se apresenta e não filtrado pelos preconceitos que às vezes poluem a mente, então a unidade é gerada, como uma sintonia, uma afinidade que «não nasce da carne nem da vontade, mas de Deus»
...e sobre esta pedra Jesus edifica a sua Igreja.
XVII DOMINGO
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Um dia, Jesus estava rezando em certo lugar. Quando acabou, um dos discípulos lhe pediu: “Senhor ensina-nos a rezar, como João ensinou aos seus discípulos”. Ele lhes respondeu: “Quando rezardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome venha o teu reino; dá-nos o pão necessário para cada dia; perdoa os nossos pecados, porque também nós perdoamos a quem é o nosso devedor, e não nos deixeis cair em tentação”.
Disse ainda: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo durante a noite para dizer: ‘Amigo, arranja-me três pães, porque outro meu amigo acabou de chegar de viagem lá em casa e não tenho nada para lhe oferecer’, e se ele responder de dentro: ‘Não me incomodes! a porta está fechada, eu e meus filhos estamos deitados. Não posso me levantar agora para te ajudar’, eu vos digo: embora não se levante para ajudá-lo por motivo da amizade, pelo menos por causa da importunação se levantará e lhe dará o que precisar.
Por isso, eu vos digo: pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei à porta e ela vos será aberta. Porque quem pede recebe; quem busca acha; e a quem bate a porta será aberta. Qual de vós é o pai que daria uma serpente a um filho que lhe pede peixe? ou um escorpião em vez de um ovo? Portanto, se vós que sois maus sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai do céu dará o Espírito Santo aos que pedirem!”
» (Lc. 11,1-13)
Lucas nos apresenta logo no início de seu texto, uma cena que se repete algumas vezes: Ele, o Senhor, recolhido em oração. Em vários momentos dos evangelhos Jesus ´e apresentado, sozinho, em oração ao Pai. Na grande maioria, estes momentos são associados às decisões importantes que Jesus deve tomar como, por exemplo, quando escolhe os discípulos ou quando está face a face com o momento mais crítico de sua vida, no horto.
Jesus procura a reclusão da solidão e do silêncio para seu encontro com o Pai. É o silêncio tão necessário em certos momentos do homem porque dispensa as palavras. Não se trata de uma simples ausência de barulhos, mas daquele silêncio carregado de presença que, delicada e firmemente, invade a alma quando nos perdemos no grande amor de Deus que completa a nossa vida. È um tempo em que o tempo é suspenso, que nunca passa nem começa porque o que nele conta é a intensidade do encontro, é a fusão de duas presenças.
A oração é a resposta à tentação, o desafio do homem que se descobre necessitado e pobre, a resposta ao mito da auto-suficiência. È a coragem do homem que se dobra, atitude mais valiosa e rara do que qualquer esforço orgulhoso. O homem que sabe se ajoelhar é indiscutivelmente mais forte daquele que não consegue.
A este ponto, quando nos superamos, o impulso mais imediato é o de pedir alguma coisa que possa “resolver” a nossa situação; é o que precisamos imediatamente, pois não temos mais força alguma para sustentar algo que é mais forte de nós. Pedimos algo. E isto é ótimo, é maravilhoso. Jesus nos encoraja a pedir, com firmeza, com constância, até com desespero, mas pedir, não exigir; é preciso pedir, porque só pedimos para alguém que, sabemos, não somente “pode” nos dar o que precisamos, mas que, acima de tudo “quer” nos dar o que precisamos. Então, isto significa crer no seu amor.
Mesmo que de início a oração nasça como um pedido às vezes desesperado, de fato pode transformar-se numa escola na qual aprendemos a nos relacionar com Deus, aprendemos a conhecer Quem não conhecíamos. As duas parábolas nos dizem que a relação com Deus não é algo que pode ser reduzido aos nossos interesses; embora Ele não deixe sem respostas, todavia não se deixa reduzir aos nossos mecanismos. Com certeza nos dará o que é de fato importante para nós, contudo, isto acontecerá na condição e no momento em que Ele, com extrema liberdade o entender. Deus quer uma relação madura, livre, entre duas pessoas que se respeitam. A relação com Deus nunca pode ser reduzida a uma magia. A perseverança, a certeza da fidelidade de Deus à sua palavra, são as verdadeiras riquezas que descobrimos em nosso coração quando aprendemos a pedir; estas são mais valiosas do que o objeto do nosso pedido. Este sem dúvida alguma virá, mas na hora em que para nós já se tornou secundário, pois pela dinâmica da oração aprendemos algo que é mais enriquecedor.
A partir daí, quando descobrimos a beleza de tudo quanto acontece quando nos colocamos diante do Senhor, acontece uma transformação da oração: se havíamos pedido “coisas” a Deus para resolver o nosso problema, Ele não se limitará a dar-nos “coisas”, mas sim aquilo que é o maior dom que possa oferecer-nos: o Espírito. Espírito é “sentir o respiro de Deus”, é “apalpar a presença”, é como aquela sensação estável em nosso coração quando amamos alguém tão profundamente que, embora longe, nunca sai de nós mesmos. Assim, Deus não nos dá, como diz o provérbio: “o peixe”, mas nos dá o “instrumento” para nunca ficar com fome. Sentir a Sua presença constante em nossa vida não elimina os problemas, não nos deixa numa áurea protegida; mas nos dá a condição e a força para que em nosso coração se instaure aquela condição que nos permite fazer as escolhas mais oportunas, nas dificuldades que todos os homens vivem, como também as viveu Jesus. È aqui que a oração que pode iniciar como “pedido”, se transforma em contemplação. Isto é, a atitude permanente de quem fica extasiado, sentindo, enriquecendo-se da presença do Deus amado. É um estado de ânimo que não abstrai do mundo, assim como também Jesus não se abstraiu do mundo circunstante. É uma condição que nos permite penetrar profundamente o mundo porque pode nos dar as condições de ver o mundo com o olhar Daquele que o fez e que melhor o conhece. A oração que se transforma em contemplação projeta o coração além do mundo para recordar continuamente ao mundo a sua vocação infinita, que não se prende só àquilo que, no momento, está diante dos olhos.
XVIII DOMINGO
LEITURA I – Co (Ecle) 1,2; 2,21-23
LEITURA II – Col 3,1-5.9-11
EVANGELHO – Lc 12,13-21
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. Jesus respondeu: “Homem, quem me constituiu juiz ou mediador dos vossos bens?” E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e fazer maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ Mas Deus lhe disse: ‘Insensato! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’. Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”» (Lc. 12,13-21).
O capítulo 12 do Evangelho de Lucas do qual é extraído o trecho de hoje, apresenta duas atitudes confrontadas uma diante da outra: aquela do discípulo autêntico que assimila a sua vida à de Jesus e, por isso, é confiante na Providência, e a postura do homem que, aparentemente, reconhece a Deus, reconhece a importância de Deus, mas de fato age sem levá-Lo em consideração. A confrontação não se dá apenas entre duas mentalidades em si, mas ambas postas diante do evento acomuna todos os homens, que é a morte. Como acontece freqüentemente, Jesus usou um fato do dia-a-dia para introduzir-nos mais e mais no estilo de vida que caracteriza uma pessoa que vive com amor a relação com Deus. A ocasião é dada por dois irmãos postos diante de uma herança.
Conforme a legislação judaica o primogênito possuía por direito a inteira herança do pai; contudo, com base em Dt. 21,17, uma terceira parte da herança podia ser dividida entre os outros irmãos, mas isto não era obrigação. Normalmente acontecia que, após a morte do pai, de fato o primogênito não dividisse a herança, gerando assim divisões na família, fato pelo qual o Salmo, em tom de auspício, exorta: «Como é bom quando os irmãos vivem juntos...» (Sal. 133,1). Foi uma situação como esta que se apresentou a Jesus. Alguém, indistinto no meio da multidão apelou a Ele. O homem que interpela Jesus é, provavelmente, o irmão mais novo, que ainda não tinha recebido nada. Era freqüente, no tempo de Jesus, que os “doutores da lei” assumissem o papel de juízes em casos similares… O fato é um pouco estranho pois, Jesus era um leigo, ou seja nem um rabino nem um sacerdote e, por lei, cabia a estes últimos fazer justiça em contendas, não a um leigo. Disso se deduz que é bem possível que aquilo que o homem procurava não fosse realmente uma solução para a questão, mas uma autoridade moral sobre a qual se apoiar, fazer alavanca para forçar seu irmão a dividir a herança. Digamos que precisava ouvir uma palavra que lhe desse as condições para requerer, em nome daquele Deus apresentado por Jesus, aquilo que lhe interessava de fato. É a velha questão ligada ao segundo mandamento: usar as coisas de Deus para finalidades próprias... A este propósito nota-se que a palavra usada no grego para indicar a “herança”, literalmente significa: “o que me cabe por lei de justiça”.
Estamos aqui diante de uma distorção da idéia de “justiça” segundo as Escrituras, pois o conceito de “repartição de bens” é muito tardio e forçado pela influência da dominação grega. “Justiça”, na mais singela tradição da Escritura é bem mais que isto, indica mais a fidelidade do que a distribuição. Sendo assim, o fato dele apelar a Jesus revela-se por aquilo que é: uma típica instrumentalização da pregação de Jesus. É, este, um fato que ainda hoje se repete toda vez que usamos das palavras da Escritura para finalidades que pouco têm a ver com o autêntico desejo de Deus. Trata-se de uma tentação para a qual nos adverte ainda hoje o Catecismo, quando nos recorda: “Não tomes Seu santo Nome em vão...”. Afinal, quanto é sutil o limite entre servir a Deus e se servir de Deus! É esta segunda intenção que Jesus censura; o Senhor não quer sujeitar-se ao jogo dos interesses privados: «Homem, quem me constituiu juiz ou mediador dos vossos bens?».
O trecho nos apresenta um paradoxo: aqueles que são constituídos irmãos por natureza estão divididos por causa de uma herança, a qual, contrariamente ao ocorrido, deveria servir para manter a unidade da família. Temos aqui claramente evidenciada também outra atitude errada daquele indivíduo que reclamava por “justiça”: a herança deveria ser um patrimônio que o pai deixava não como benefício apenas de um, mas como garantia do sustento e perpetuação da família. O primogênito, com a herança, recebia também a responsabilidade e incumbência de liderar e acudir à família inteira, ao seu sustento, à proteção da mesma e tudo quanto fosse necessário. Não era apenas dinheiro e posses que ele recebia. Recebia também a responsabilidade da família inteira. Deste modo, é preciso ver neste episódio, não somente a cobiça encoberta por uma justificativa, mas a incapacidade daquele tal, “irmão”, de manter-se agregado à sua família. É preciso ver a indisposição dele de entregar suas necessidades ao irmão primogênito; enfim, o desejo de constituir uma vida autônoma, sem aquela ligação tão importante para o mundo oriental que era a família. Para esta família, como um todo, tinha sido dada a “herança”.
Estamos diante da imagem de um homem que não é capaz de confiar, que prefere possuir algo que lhe dê o tipo de segurança que deseja, do que ter a certeza de que não ficará desamparado. É o oposto do discípulo autêntico, do “fiel” que Jesus deseja, o qual não precisa possuir bens que sirvam para preencher os vazios de insegurança que tem e que nascem quando somos incapazes de confiar em alguém. O discípulo confia, acredita em Deus, acredita que Ele é o Pai misericordioso e providente, um Pai do qual não precisa fugir para encontrar na autonomia a própria segurança. O fiel verdadeiro entrega tudo porque sabe que o patrimônio que está à sua disposição é bem maior e que Alguém cuida daquele patrimônio com justiça, que é fidelidade ao amor.
Nota-se na expressão: «vossos bens», a profunda desaprovação de Jesus quanto à curta visão do homem o qual considera os “bens” como sendo “o que cabe por lei de justiça”. Os “bens” são algo “vosso”, diz Jesus. “Bens” são exatamente o que Jesus não pode dar, “bens” são o que está em poder do maligno e que ele pode oferecer sempre, como está claro em toda a pregação de Jesus. “Bens” são as coisas que dividem irmãos, que dividem aquilo que Deus criou unido. “Bens” desencadeiam um processo de posse infindável, uma vez que esta avidez é ligada a um inconsciente desejo de superioridade, que serve de compensação à insegurança de uma pessoa que não se sente amada ou que se fecha em seu mundo particular por várias razões. Diríamos nós, com um ditado popular: “tampar o sol com a peneira”.
Os “bens” são exatamente o oposto daquilo que Jesus veio dar.
Parábolas:
A imagem é a de um proprietário terreiro que viu uma colheita superior a qualquer expectativa. Na narração encontramos o uso da expressão: «deu muito fruto». Reforçando deste modo o caráter de “dom” que a abundante colheita tem, Jesus referia-se deste modo ao caráter de “dom” que a herança tem, como vimos. Ela não é um “direito de lei” como entendia aquele individuo, mas sim um dom, algo simplesmente dado. Também nesta parábola o sujeito esqueceu que a abundância é “dada” e, por quatro vezes repete: «minha colheita», «meus celeiros », «meu trigo», « meus bens». Assim como o primeiro homem também este segundo fica à mercê do insaciável desejo de possuir, iludindo-se de encontrar aquela segurança que o deixaria feliz. A parábola gira em torno de uma expressão muito querida por Lucas: «O que farei?» (cfr. Lc.3,10.14;10,25;16,3 etc). É a pergunta do homem diante de sua vida e de sua morte, é a pergunta que nasce da liberdade de poder orientar a própria vida. Esta pergunta se desencadeia com maior força quando acontece algo inesperado, tanto que seja bom quanto que não o seja. Aqui então o questionamento é sobre o que fazer com tudo o que Deus dá a mais do que o esperado. Saber escolher corretamente pode modificar a vida de uma pessoa. Infelizmente o agricultor não conseguiu, não soube definir um limite, não soube dizer “basta”, tudo foi interpretado como “direito dele” (o que no entanto não é errado); o problema é que foi interpretado “somente” como direito dele. E assim fez a opção que o discípulo verdadeiro não faria: escolheu para si. Deste modo perpetuava em si mesmo a prisão que nasce do medo do amanhã; escolhia a não liberdade; escolhia derrubar o que tinha, somente para fortalecer o seu medo quanto ao futuro.
Não é assim quando uma pessoa tem um relacionamento maduro, autêntico com Deus. Um relacionamento como entre pessoas que “sabem” o que uma deu para outra e por isso não podem duvidar minimamente do laço gerado.
Ao contrário daquilo que o homem pensava, na vida do discípulo o que dá segurança não nasce da posse nem do controle de bens, mas sim da capacidade de entregar, de dar. A posse insaciável, a incapacidade de dizer “é suficiente”, “não preciso”, é um dos sintomas mais claros de que algo não está certo na nossa relação com Deus e com as outras pessoas, nossos “irmãos”.
Esta posição ambígua é muito bem expressa com o atributo: «Insensato» que é dado ao agricultor. O significado histórico desta expressão se encontra reiteradamente no Antigo Testamento quando se quer indicar o homem que, teoricamente acredita em Deus, que seu comportamento aparentemente mostra um aspecto; de fato, depois, quando escolhe, quando decide o que fazer, toma uma decisão prescindindo de Deus, não O levando em consideração. É o homem que tem como ponto de referência as suas próprias decisões, sensações, projetos; assim por exemplo o Sal. 14,1: «Diz o insensato em seu coração:“Deus não existe”», Sal. 74; Jer. 5,21 etc.
É isto que resta quando o Bem é confundido com “os bens”.
XIX DOMINGO
LEITURA I – Sab 18,6-9
LEITURA II – Heb 11,1-2.8-19
EVANGELHO – Lc 12,32-48
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Deixai de lado este medo, pequeno rebanho, porque foi do agrado do Pai dar-vos o Reino. Vendei o que possuís e dai-o de esmola. Fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro nos céus que não se esvaziará, do qual o ladrão não se aproxima e a traça nada destrói.; porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Estai preparados: com a roupa bem presa na cintura e com as lâmpadas acesas. Sede parecidos aos que esperam o seu patrão voltar do casamento para abrir-lhe a porta logo que ele chegar e bater. Felizes os servidores que o patrão encontrar acordados, quando chegar. Eu vos declaro que ele prenderá sua roupa na cintura, os colocará à mesa e ele mesmo passará entre eles para servi-los. Mesmo que chegue no meio da noite ou de madrugada, felizes deles se os encontrar ainda acordados. Compreendei bem isto: se o dono da casa tivesse sabido a que hora havia de vir o ladrão, não o teria deixado arrombar a porta da casa. Vós também estais preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem”. Então Pedro disse: “Senhor, é para nós que ensinais esta parábola ou para os outros?”. O Senhor respondeu: “Quem é o administrador fiel e prudente, que o senhor porá à frente dos seus servidores para lhes distribuir o alimento no tempo devido? Feliz daquele servidor que o patrão encontrar agindo do mesmo modo, quando chegar! Porque eu vos garanto: ele o fará administrador de todos os seus bens. Mas se aquele servidor ficasse pensando: ‘Meu patrão vai demorar em chegar’; e começasse a bater nos empregados e nas empregadas, a comer e beber até se embriagar, virá o patrão daquele servidor no dia em que ele menos o espera e na hora em que ele não sabe, irá então castigá-lo severamente e o colocará entre os infiéis. O servidor que, conhecendo a vontade do patrão, não tiver preparado nada, nem procedido conforme essa vontade, receberá muitas chicotadas, mas aquele que não a conhecer, e fizer algo que mereça castigo, receberá poucas chicotadas. A quem muito foi dado, muito será pedido. A quem muito se confiou, dele muito será exigido» (Lc. 12,32-48).
No domingo passado refletimos sobre o fato de confundir os “bens” com o Bem ou, como diria São Paulo, o risco de «colocar a criatura no lugar do Criador» (Rm. 1,25).
No texto desta semana, Jesus se dirige diretamente a nós, palavras de confiança no amor providente de Deus, palavras que deixam claro como cada um de nós é importante para Deus como se fosse o único.
«Deixai de lado este medo», é uma melhor tradução do que: “não tenham medo” porque o acento está na decisão que podemos tomar ou não. O medo é incontrolável, ele vem, não podemos não ter medo, mas podemos “deixar de ter medo” ! Principalmente deixar de carregar conosco os medos que nos induzem a fazer opções erradas. Podemos não permitir que os medos nos controlem e ajam em nosso lugar.
O texto que temos nas mãos ressente da influência do momento em que foi colocado por escrito, um momento em que a comunidade dos discípulos estava dando os seus primeiros passos. Isso nos permite entender força da expressão de Jesus: «pequeno rebanho»; evidentemente o Senhor não estava se referindo ao número de discípulos, mas à sua qualidade: “rebanho feito de pequenos”. Os discípulos têm como parte integrante da sua identidade o fato de serem “pequenos”, que na linguagem bíblica significa: “frágeis”. Ora, justamente o fato de serem “pequenos” poderá ser a fonte da liberdade que dá a força de desvencilhar-se do medo, bem o oposto daquilo que é obvio no mundo competitivo de hoje, onde os fortes são tidos como vencedores.
Jesus também usa a expressão «pequeno rebanho» em tom de contradição com o pensamento de alguns religiosos da época: o “pequeno rebanho” não é o “rebanho dos pequenos”. A primeira forma era usada nas comunidades de Qumrã, uma “elite” religiosa que assim designava a si mesma para dizer que, diante da multidão que é pecadora e que necessariamente receberá o castigo de Deus eles, aquela pequena elite, era o rebanho verdadeiro. Mas para Jesus a pureza é bem outra coisa; ouvimos isto já nas Bem-aventuranças: puros são aqueles que vêem o mundo com o olhar de Deus.
Obviamente a pergunta agora é: e qual é este olhar?
Ao dirigir-se aos discípulos, Ele faz referência ao livro de Daniel quando trata da figura do “Filho do homem”, ali diz o texto: «O reino, o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo» (Dan. 7,27). No coração do “pequeno” reina Deus como centro da sua vida. O “pequeno” aprendeu a sentir-se necessitado de Deus e a recorrer a Ele.
Por outro lado, o reinar de Deus é um dom, diz Jesus, um dom gratuito do Pai àquele que se abre a receber não “bens”, mas o Bem. É o dom de sentir forte e marcante a presença de Deus como verdadeira riqueza; presença que ninguém pode tirar; tesouro ao qual se pode atingir no momento de maior necessidade, tesouro sempre à disposição da nossa mão que o alcança com a oração, a vida dada, as escolhas humildes e obedientes.
Lemos ainda: «foi do agrado do Pai dar o Reino a vocês». A mesma expressão, “agrado”, “complacência” é usada em relação a Jesus em ocasião do Batismo e da Transfiguração; isto estabelece uma relação entre o discípulo que vive como “pequeno” e o próprio Filho de Deus: ambos, mesmo que de modo diferente, revelam a prioridade absoluta da relação com Deus, entendido como um Pai que cuida e se preocupa.
Como reconhecer o “pequeno”? É suficiente a sua condição econômica ou social? Como distingui-lo com outra pessoa que a vida colocou também em situações de inferioridade? É suficiente esta condição para ser o “pequeno” do Evangelho?
Não, com certeza. O sinal que Jesus dá é bem claro: a esmola. Hoje quando falamos de esmola entendemos uma pequena quantia dada, às vezes “jogada” nas mãos de alguém que pede. É uma interpretação muito restritiva e, com certeza, não corresponde ao uso que aqui Jesus faz. A esmola pode humilhar tanto a pessoa que dá quanto a pessoa que recebe, pode reforçar a divisão em classes, pode fortalecer o sentido de poder... enfim, nem sempre a esmola é benigna, como pode parecer. A palavra “esmola” indica o típico discurso pronunciado em defesa de alguém que está numa situação passiva. Dar em “esmola” então é bem mais que consignar valores monetários, é o fruto que brota espontâneo no coração do discípulo que entendeu a presença de Deus na sua vida como o maior tesouro (recordamos que o coração na Escritura é o lugar onde se tomam as decisões fundamentais). Dar em esmola é próprio do discípulo que, possuindo o Senhor em sua vida como centro, vê o mundo com o Seu olhar, um olhar de compaixão e desprendimento. É próprio do discípulo que tem um olhar de amor que vê a Deus como tesouro e vê o outro como amado por Deus: «onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração».
SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA
LEITURA I – Ap 11,19a;12,1-6a.10ab
LEITURA II – 1 Cor 15,20-27
LEITURA II – 1 Cor 15,20-27
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.
Este domingo é dedicado a festa da Assunção de Maria.
Mas na verdade, a razão desta festa é celebrar a memória do desfecho de um ser humano que um dia começou um caminho novo, foi movido exclusivamente pela fé e por um ato generoso de confiança desmedida. É a celebração da criatura que se põe a caminho e a serviço de Seu criador, seguindo um mesmo caminho e um mesmo percurso que Maria trilhou ao aceitar o mesmo convite que Deus nos faz a cada um de nós: entregar-nos pela fé!
A dinâmica é a que sempre Deus propõe a todos os homens: sem pedir licença, no momento em que menos estamos esperando, Deus surge com uma proposta de vida. E diante da proposta de Deus, o homem pode escolher “tomar conta” da situação, assim como (por linguagem figurada) o fez “Eva”, que “comeu” o fruto, isto é, que quis apoderar-se do “bem e do mal”, do sentido das coisas; ou pode também acolher a proposta de Deus, de confiança total e de entrega, com a única certeza de que Ele nos ama. Trata-se de duas possibilidades: Uma, que resulta do anseio de encontrar meios e coisas que nos possam dar a felicidade como nós a imaginamos para a nossa vida, e outra que nasce da decisão de receber como dom gratuito a felicidade como Deus a imaginou para nós.
É só escolher.
Essa é a razão de nós católicos venerarmos tanto a figura de Maria. Porque Maria escolheu a segunda opção! Optou pela fé e generosamente em favor da bondade de Deus. «Feliz Aquela que acreditou» disse um dia Isabel a Maria. Como a Deus, também a Maria pode ser aplicada a bela imagem da «águia que incita seus filhotes a voar» (Dt. 32,11) para que os filhotes, que têm medo de se arriscar pelos ares, olhando para ela se lancem, certos de que, em qualquer momento, Ela os «carregará com as asas de águia», asas fortes pela força que nasce de uma vida vivida em função do Senhor. Foi assim que Ela agiu para com a pequena comunidade dos discípulos amedrontados após a morte de Jesus; incitou, carregou, viveu discreta e firmemente a vocação que Deus Lhe havia confiado desde as palavras do Anjo Gabriel até as de seu Filho na cruz: serás a Mãe. Mãe do Salvador e dos que são salvos, Mãe que sempre ensina a arte de dizer: «estou aqui... faça-se em mim...». Deus confiou em Maria, Maria confiou em Deus.
Rezar com Maria.
Rezar com Maria, mais que nos ajoelharmos diante dela, é ajoelhar-se ao seu lado para nos juntarmos à sua oração. Ela acompanha-nos e guia-nos na nossa caminhada junto de Deus.
Rezar como Maria.
Aprendemos junto de Maria os caminhos da oração. Na escola daquela que “guardava e meditava no seu coração” os acontecimentos do nascimento e da infância de Jesus, nós meditamos o Evangelho e, à luz do Espírito Santo, avançamos nos caminhos da verdade. A nossa oração torna-se ação de graças no eco do texto de hoje. Pomos os nossos passos nos passos de Maria para dizer com ela na confiança: “que tudo seja feito segundo a tua Palavra, Senhor!”
21º DOMINGO DO TEMPO COMUM
LEITURA I – Is 66,18-21
LEITURA II – Heb 12,5-7.11-13
EVANGELHO – Lc 13,22-30
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
«Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que serão salvos?”. Jesus respondeu: “Lutem para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não terão força. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’. Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’. Ele, porém, responderá: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim, todos vós, que praticais a injustiça!’. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”. » (Lc. 13,22-30)
Este texto de Lucas é constituído por materiais de distintas procedências, aqui agrupados por razões de interesse temático. Inicialmente, eram “ditos” de Jesus (pronunciados em contextos distintos) sobre a entrada no “Reino”. Lucas aproveita-os para mostrar as diferenças entre a teologia dos judeus e a de Jesus, a propósito da salvação. Surge uma questão de alguém não identificado: “Senhor, são poucos os que se salvam?”
A questão da salvação era uma questão muito debatida. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era algo reservado ao Povo judeu (o povo eleito) e só a ele. Para o mundo de então ( e para o atual também) o mundo é dividido entre “os bons” e “os outros”; Os que se comportaram bem na vida receberão o seu prêmio e os outros um castigo proporcional... Era esta também a visão do nosso interlocutor. Esta maneira de ver a religião movia grupos sempre mais integralistas e mais exagerados na observância de detalhes, de regras e normas religiosas. Os Talmudes, por exemplo, nos trazem informações sobre como ser um verdadeiro fiel israelita; a pessoa devia seguir pelo menos 350 regras para não infringir a lei do sábado! Era portanto um pesado fardo que se colocava nos ombros das pessoas.... Jesus, no entanto, falava de Deus como um Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os necessitados. Fazia, portanto, sentido para aqueles judeus que O seguiam, saber o que pensava Jesus acerca da questão…«É verdade que são poucos os que serão salvos?”». A pergunta parece já dar como certo que serão mesmo poucos. Aquele indivíduo busca somente uma confirmação de que Deus salvará apenas poucos da desgraça final, uma vez que somente alguns foram capazes de seguir os pesados preceitos e regras para agradar o Altíssimo.
Jesus como sempre responde mudando o foco. Conta a parábola de uma grande festa, representada pela imagem de um banquete onde existe uma porta aberta para que entrem as pessoas. A imagem é belíssima pois Jesus coloca a entrada para a grande festa como uma porta aberta, simplesmente aberta! É estreita, sim, não se pode entrar por ela de qualquer jeito carregando tudo o que quisermos, mas é aberta! A questão, então não se coloca sobre como conquistar s meios para entrar “na festa”, ou o método melhor para alcançar a meta, pois esta é garantida a todos pela imagem da porta aberta. A imagem da “porta estreita” é sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Que fardos são esses? o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio… Tudo aquilo que impede o homem de se lançar, de se entregar ao amor, a partilha, ao dom da vida, que é o sinal de adesão ao “Reino”. É como uma mochila que carregamos nas costas na hora de fazer uma viagem, nela colocamos uma grande quantidade de coisas achando que todas têm o mesmo valor e que são indispensáveis, ou que um dia poderão nos servir.... Mas, quanto mais o tempo passa, tanto mais esta mesma mochila se revela pesada e quanto mais coisas houver dentro tanto mais difícil se torna conseguir passar por uma porta que é mais estreita do que se imagina. E cada um de nós conhece os pesos que carrega, sua história, erros, dificuldades... Enquanto essas coisas permanecerem como “nosso tesouro”, nossa bagagem, enquanto não formos capazes de abandoná-los, abandonando-nos totalmente ao amor sem medida de Deus, nossa “mochila” continuará grande e não nos deixará passar por esta porta.
No Livro de Gênese; em dois episódios ligados entre si encontramos elementos que explicitam as palavras de Jesus: Jacó viveu uma experiência mística à qual Jesus três vezes fez referência e que é descrita com a imagem de um sonho (Gen. 28, 10ss). Ele sentiu que, o Deus que chamava “Altíssimo”, na verdade estava mais perto do que podia imaginar e que o acesso a Ele não era proibido (todas as religiões daquela época percebiam as divindades como entes proibidos), ao contrário! O sonho termina com uma expressão de admiração e temor: «Este lugar é terrível, é a porta do céu!». Em outro lugar (Jo. 10,1-9), Jesus se interpreta como aquela “porta” que dá acesso ao céu. Ao indivíduo que lhe perguntava sobre o número daqueles que forem aceitos por Deus, Jesus responde que o Pai aceita todos os que passarem pela porta que é o Cristo. Não há outro critério, Jesus é a porta e entrar por ela significa penetrar o modo de pensar e de agir de Jesus, significa “entrar” em sua vida. Tudo o que o homem fizer, mesmo bom, deve necessariamente passar pela comunhão com Jesus, sem esta os atos se tornam insignificantes: «não vos conheço» responderá o dono da casa. Sabemos que “conhecer”, na linguagem bíblica, significa ter uma relação totalmente transparente e quase uma fusão de pessoas.
O outro texto, de Gen. 32,23-33, descreve um autêntico encontro com Deus... se o primeiro aspecto é como um sonho, o segundo se transforma realmente numa “luta”. Trata-se então de travar uma luta decisiva contra tudo quanto Deus nos propõe de deixar; Uma luta contra o Seu adversário que é o nosso “eu”, que crê de precisar de muitas coisas para ser feliz. Nesta luta, o único desejo de Jacó não é demonstrar superioridade (como bem no fundo faz o ateísmo) ao contrário, a luta de Jacó é humilde, ele luta para receber uma benção... e consegue, mesmo que isto lhe custe ficar marcado (mancando de uma perna). E mais, além da benção Jacó aprende a conhecer a Deus!
22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
LEITURA I – Sir 3,19-21.30-31
LEITURA II – Heb 12,18-19.22-24a
EVANGELHO – Lc 14,1.7-14
Sérgio Alejandro Ribaric, mestrando em Teologia
“Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;”
Novamente Lucas nos propõe uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do proposto e oferecido por Deus a todos os homens: a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado. Novamente o cenário é de um banquete em casa de um fariseu. Como no episódio da porta estreita, todos os homens são convidados, mas devem procurar se desvencilhar de seus “pesos” de suas “mochilas” que os impedem de entrar pela porta “estreita”. Neste caso, o foco é a atitude de humildade que se espera de qualquer homem.
Observe-se que na primeira leitura, um sábio dos inícios do séc. II a.C. (Bem Sirac) fala da “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens e aconselha a humildade como caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para ter êxito e ser feliz. É a preparação do texto do evangelho que a Igreja selecionou como abertura para a parábola de Jesus. A segunda leitura é a quinta parte da Carta aos Hebreus (cf. 12,14-13,19). Depois de pedir a perseverança e a constância nas provas (cf. Heb 12,1-13), o autor vai pedir uma conduta conseqüente com a fé cristã: os cristãos são exortados a manter e cultivar relações harmoniosas, adequadas, justas, para com os homens e para com Deus. Diferentemente do texto da primeira leitura, esta questão parece que não tem muito a ver com o tema principal da liturgia deste domingo; no entanto, o tema central do evangelho de Lucas, a humildade, a gratuidade, o amor desinteressado são obtidos pela exigência da vida cristã, essa vida que brota do encontro com o amor de Deus e nos coloca em “outro caminho”.
EVANGELHO
Ainda no “caminho de Jerusalém” Lucas nos põe Jesus à mesa, em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus. Deve tratar-se da refeição especial de sábado, que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Assim, o convite do qual nos fala o Evangelho de hoje não é uma simples refeição quotidiana. O fato acontece num sábado, dia em que não se davam banquetes, não se servia refeição à mesa, mas simplesmente -como se encontra em algumas traduções- «Jesus foi convidado para comer pão» por um personagem de relevo entre os fariseus. O intuito era claro: observar como se comportaria Ele no dia de sábado. O Sábado era o dia em que, todo piedoso hebreu, celebrava com o máximo empenho o mandamento de colocar a Deus em primeiro e único lugar durante o dia. O Sábado era muito mais do que um dia de descanso; era o dia em que se recordava e se celebrava a correta posição do homem em relação a Deus. Era exaltada a primazia absoluta de Deus respeito ao resto da criação e, no reconhecimento desta primazia, o homem reencontrava a sua dignidade, a sua posição, a sua vocação. Para essa refeição, deviam convidar-se os hóspedes; e continuava-se a discussão sobre as leituras escutadas durante o ofício sinagogal.
É mais provável que se tratasse de uma armadilha armada pelos Fariseus, para colocar Jesus contra as “leis” do templo na frente de todos os doutores da lei, visto o número de convidados e a sua ânsia na busca dos primeiros lugares para observar o comportamento de Jesus. Durante esta refeição Jesus curou um hidrópico suscitando a crítica dos presentes por ele realizar uma cura aos sábados.
O fariseu havia convidado pessoas da sua mesma classe para viverem juntos a refeição “pão” assim como era feito no Templo onde era oferecido a Deus o pão. Vejamos: assim dizia a Lei: «Nenhum homem em quem houver defeito se chegará para oferecer o pão do seu Deus: como homem cego, ou coxo, ou de rosto mutilado, ou desproporcionado, ou homem que tiver o pé quebrado ou mão quebrada, ou corcovado, ou anão, ou que tiver belida no olho, ou sarna, ou impigens, ou que tiver testículo quebrado.» (Lv. 21,16-20)». Nenhum destes era digno de oferecer a Deus o “pão” ritual do Templo. Eis, então que Jesus mostra a verdadeira “pureza” que agrada a Deus, é a pureza de quem convida exatamente aqueles que não estão em condições de responder aos critérios que o homem estabelece com as suas regras, embora ele consiga dar-lhes um fundamento religioso. O homem puro de coração, que respeita o sábado é o homem que come o “pão” com aqueles que não têm reconhecido nem o direito de oferecer o seu “pão”, o pouco que têm. Os cegos, coxos e aleijados eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, e por isso estavam proibidos de entrar no Templo (cf. 2 Sm 5,8) para não profanar esse lugar sagrado (cf. Lv 21,18-23)
Importante frizar que Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus tão próximos de Jesus que até o convidam para casa e se sentam à mesa com Ele (cf. Lc 7,36; 11,37). É provável que se trate de uma realidade histórica, embora Marcos e Mateus apresentem os fariseus como os adversários por excelência de Jesus. Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina desta época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos dos israelitas. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah (a Lei) quer escrita, quer oral. Tratava-se de um grupo sério, verdadeiramente empenhado na santificação do Povo de Deus; mas, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se a si próprios como “puros” (porque viviam de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, por causa da ignorância e da vida dura que levava, não podia cumprir integralmente os preceitos da Lei. Conscientes das suas capacidades, da sua integridade, da sua superioridade, não eram propriamente modelos de humildade. Isso talvez explique o ambiente de luta pelos lugares de honra que o Evangelho refere e a preocupação de Jesus em realçar esse aspecto para ensinar.
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