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Criamos este espaço, a partir de setembro de 2009, para tratar de temas atuais, inquietantes, que permeiam o nosso cotidiano, e que também são objeto da Teologia. Os responsáveis por este link são os Teólogos Sérgio Alejandro Ribaric e diácono Mario Angelo Braggio.
Sobre a encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI
“Deus é amor; quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele”. A Encíclica se inicia com estas palavras retiradas da primeira carta de João (1 Jo 4, 16). Palavras que exprimem o centro da nossa fé cristã. A Encíclica é composta por duas partes. A primeira parte oferece uma reflexão teológico-filosófica sobre o «amor» nas suas diversas dimensões - eros, philia, agape – especificando alguns fatos essenciais sobre o amor de Deus pelo homem e a intrínseca ligação que tal amor tem com o ser humano. A Segunda parte trata do exercício concreto do mandamento do amor ao próximo. A palavra “amor” tornou-se uma das palavras mais usadas e tantas vezes incorretamente do mundo de hoje, que privilegia, como na antiga Grécia, o amor entre o Homem e a Mulher. Esta forma de amor tinha o nome de EROS. Na Bíblia, e sobretudo no Novo Testamento, a palavra amor está mais voltada ao termo ágape, que exprime um amor oblativo. Esta nova visão do amor, uma novidade do Cristianismo, foi considerada como a recusa do eros e da corporeidade. O eros, colocado na natureza do homem pelo seu próprio criador, precisou de disciplina, de purificação e de maturação para não perder a sua dignidade originária e não se degradar em puro «sexo», transformando-se numa mercadoria. A fé cristã sempre considerou o homem como um ser no qual o espírito e matéria se encontram em íntima unidade: corpo e alma devem-se encontrar em perfeita harmonia. Então o amor torna-se «êxtase»; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do “eu” fechado em si mesmo, para a sua libertação no dom de si para o outro e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo e a descoberta de Deus. Segunda parte O amor ao próximo, radicado no amor de Deus, é um dever para cada um dos fiéis, e para a comunidade eclesial inteira, que, na sua atividade caritativa, deve sempre viver a experiência do amor trinitário. Na estrutura fundamental da Igreja emerge a «diaconia» como serviço de amor ao próximo, exercido comunitariamente e de forma ordenada. Um serviço concreto, mas ao mesmo tempo também espiritual (cf At 6, 1-6). Com a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais. A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. No final do século XIX, contra a atividade caritativa da Igreja é levantada uma objeção fundamental: estaria em contraposição – dizia-se – com a justiça, acabando por agir como sistema de conservação do “status quo”. Com a prática de obras de caridade individuais, a Igreja favorecia a manutenção de um sistema injusto e tornava-o simultaneamente mais suportável, refreando o potencial revolucionário e, conseqüentemente, bloqueando a direção a um mundo melhor. Contrariamente a essa tese marxista, o Magistério Pontifício a começar com a Enciclica Rerum novarum de Leão XIII (1891) e terminando com a trilogia de Encíclicas Sociais de João Paulo II (Laborem exercens [1981], Sollicitudo rei socialis [1987], Centesimus annus [1991]) enfrentaram com crescente insistência a questão social, e no confronto com situações e problemas sempre novos, desenvolveram uma doutrina social articulada, que propõe orientações válidas muito além das fronteiras eclesiais. Todavia, a criação de uma ordem justa da sociedade e do Estado é competência central da política, não podendo assim ser encargo imediato da Igreja. A doutrina social católica não pretende conferir à Igreja um poder sobre o Estado, mas simplesmente purificar e iluminar a razão, oferecendo a sua contribuição para a formação da consciência, para que a verdadeira exigência da justiça possa ser apercebida, reconhecida e, depois, também realizada. Um Estado que queira prover a tudo, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. No nosso tempo, um positivo efeito colateral da globalização manifesta-se no fato que a solicitude pelo próximo, superando os confins da comunidade nacional, tende a alargar os seus horizontes. A estrutura do Estado e as associações humanitárias favorecem de vários modos a solidariedade da sociedade civil. Na Igreja Católica e noutras Igrejas e Comunidades eclesiais, também apareceram novas formas de atividade caritativa. Entre todas estas entidades deve ser estabelecida uma colaboração frutuosa. Naturalmente é importante que a atividade caritativa da Igreja não perca a sua própria identidade dissolvendo-se numa organização assistencial comum e tornando-se uma simples variante desta, mas mantenha todo o esplendor da essência da caridade cristã e eclesial. Assim:
Neste contexto, e face ao secularismo vigente que pode condicionar até muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo, é necessário reafirmar a importância da oração. O contato vivo com Cristo nos remete a consciência dos limites da ação própria, evitando os perigos de cair numa ideologia que pretende realizar agora, excluindo Deus do governo do mundo. Quem reza não desperdiça o seu tempo, mesmo quando a situação apresenta todas as características duma emergência e parece impelir unicamente para a ação humana. Nem pretende mudar ou corrigir os planos de Deus, mas procura - sob o exemplo de Maria e dos Santos – atingir em Deus a luz e a força do amor que vence toda a obscuridade e egoísmo presente no Mundo.
A celebração do Sábado de Aleluia
Todos que participamos da noite do Sábado de Aleluia ficamos envolvidos com uma série de riquíssimos símbolos e gestos simbólicos que, desde os primeiros momentos da liturgia cristã, foram criados a fim de explicar o sentido da Páscoa já que quase sempre o símbolo chega onde a razão não consegue. Tudo começa no escuro. Simboliza o caos inicial. Para grande parte das mitologias antigas, o mundo veio de um caos; uma confusão sem sentido sobre a qual uma divindade intervém. Geralmente essa divindade se sobressaiu lutando com outra divindade maligna (representada por dragões, serpentes, monstros etc.). Assim, o cosmo nasce de uma luta, da morte de um monstro operada por uma potência maior. Nesta ótica, a luta é considerada como um elemento intrínseco à estrutura do mundo; por isso a guerra nada mais é do que um fato normal, natural como o sol e a sua antagonista: a lua. Do mesmo modo o frio e o calor, a vida e a morte e assim por diante. A luta e a supremacia do mais forte sobre o mais fraco são tidos como elementos que fazem parte da ordem do universo; deste modo nascem e se justificam as castas, as raças, a pobreza, a doença, o destino etc. Era esta a crença comum, antes que a Sagrada Escritura desafiasse o mundo de então (e ainda o nosso...) dizendo que não é assim. A nossa atenção na celebração do sábado cai imediatamente sobre o fogo que ilumina, aquece, atrai e queima quem se atrever a se aproximar. Todos conhecemos o grande valor que o fogo tinha junto às antigas culturas. Uma destas, creio, pode nos interessar de modo especial, já que os próprios hebreus viveram mergulhados nela por muitos anos. Os Egípcios pensavam que o mundo tivesse sido feito pela combinação de quatro elementos primordiais, fogo, água, ar, terra (esta visão inspirou mais tarde o filósofo grego Heráclito). Tais elementos eram controlados por demônios -isto é, divindades imprevisíveis- o homem era fruto desta combinação casual assim como toda a natureza. Mas, o que isto tem a ver com a nossa celebração? Fora da porta da Igreja, o sacerdote pronuncia uma palavra, uma palavra de benção sobre alguns destes elementos. Repete aquilo que a Escritura nos diz na sua primeira página: o mundo não está à mercê de forças ocultas, nem é fruto de acaso. Sobre todos os elementos, o sacerdote pronuncia uma benção. A benção é o sentido que Deus dá a tudo o que existe: é bom porque “conduz” o homem. Para onde? Bem, a Escritura, reflexo da fé de Israel, reduz a nada todas as divindades porque se mostram como forças, mas não têm lógica, não dizem nada, não “falam”... A narração do Evangelho nos diz que o sudário, a mortalha onde fora envolvido Jesus, estava «dobrada, num lugar próprio»; foi a este ponto que o discípulo João «acreditou». A mortalha dobrada com cuidado nos sugere a ausência de conflito, quase algo acontecido com calma, tranqüilidade, com o tempo necessário para dobrar a mortalha. Sim, a morte não era mais aquela “agonia” (agonia na língua originária significa luta, conflito) que todos temem. Era o desfecho de toda a vida de Jesus vivida em unidade de amor ao Pai e aos homens. Nunca mais os discípulos verão o corpo de Jesus como o haviam conhecido. Jesus se fará tocar, falará, atravessará portas fechadas e, para que não se acreditasse em espíritos ou fantasmas, pedia de comer… Algo havia mudado! A própria estrutura do cosmo, da nossa natureza tinha sido aberta a novos horizontes. A partir da Ressurreição de Jesus, um filho de homem poderia tornar-se filho de Deus, possuir o mesmo “sangue” (linguagem usada para indicar uma aliança irreversível quando se faziam contratos, linguagem que Jesus utilizou na última Ceia). A partir da Ressurreição os limites naturais de um pão e de um pouco de vinho poderiam realmente ser permeados por «aquele mesmo Espírito que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos» (Rm. 8,11). Não é isto que realizamos a cada celebração Eucarística? Não é isto que desejamos quando desejamos o Batismo para o nosso filho? Com a Ressurreição de Jesus foi possível que, aquilo que impedia ao homem de ter acesso a Deus, fosse reduzido a nada. Entende-se então o motivo pelo qual o cristão “já é” filho de Deus, como dirá João, embora nós não saibamos completamente o que isto signifique (1Jo. 3,2). Eis então um novo sentido para a vida do cristão: não buscar a Deus desesperadamente como um objetivo a ser alcançado, mas contemplar e viver até o fundo, em todas as circunstâncias e com todas as conseqüências, aquilo que já somos. A fé cristã é mais do que religiosidade, com a qual buscamos uma vida correta para alcançar algo, mas sim o contrário: louvar e agradecer Deus por aquilo que Ele já nos deu, gratuitamente, sem medir com a nossa medida. É aqui que fé se mistura com a alegria que provêm da Ressurreição.
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