Criamos este espaço, a partir de setembro de 2009, para tratar de temas atuais, inquietantes, que permeiam o nosso cotidiano, e que também são objeto da Teologia.

Os responsáveis por este link são os Teólogos Sérgio Alejandro Ribaric e diácono Mario Angelo Braggio.

 

SOBRE A ENCÍCLICA DEUS CARITAS EST, DE BENTO XVI – Por Sérgio Alejandro Ribaric

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO – Por Sérgio Alejandro Ribaric

A SANTÍSSIMA TRINDADE – Por Sérgio Alejandro Ribaric

 

 

 

 

A Santíssima Trindade

 

A Solenidade da Santíssima Trindade é a “história de amor”de Deus para com o homem. Do Deus criador que se manifesta aos homens na beleza e na harmonia das obras criadas, em Jesus Cristo, seu filho, o grande revelador do amor do Pai que derrama sobre nós as graças e os dons do céu e nos oferece a vida em plenitude. E do Espírito que acompanha a caminhada do homem.

Na Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um Deus que soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho conosco. Apesar da recusa do homem, por egoísmo, por orgulho, ou auto-suficiência, Deus continua a fazer-nos propostas de vida. O amor de Deus aos homens é um amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.

A vinda de Jesus Cristo, Deus encarnado é a prova desse amor incondicional. Vir ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e sinal de que quis até partilhar conosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.

Esta passagem de São João retoma o texto da Solenidade do Pentecostes (semana passada) sobre o Espírito de verdade que será guia para a verdade total… É o Espírito que dará a força aos apóstolos para compreender e agir em missão. O Espírito Santo desvela progressivamente, ao longo da história da Igreja essa ação destinada a toda a humanidade e principalmente a comunidade de fé. A fé implica um salto no desconhecido! E isto verifica-se particularmente no mistério da Santíssima Trindade. A palavra não se encontra na Bíblia, mas a realidade que quer exprimir está muito presente no ensino de Jesus. No texto proposto, vemos com que insistência Jesus fala de seu Pai e do Espírito de verdade. Jesus diz, o mais explicitamente possível, que entre o Pai, o Espírito e Ele tudo é comum… Deus que é Pai, Filho e Espírito, Deus Único mas não solitário, Deus comunhão é a pedra angular da fé cristã, a diferença, sem dúvida, fundamental em relação às outras concepções de Deus.

O texto do evangelho de João que nos é proposto neste domingo situa-se no contexto da última ceia e do discurso de despedida que antecede a “hora” de Jesus. Depois de constituir a comunidade do amor e do serviço e de apresentar o mandamento fundamental que deve dar corpo à vida dessa comunidade, Jesus vai definir a missão da comunidade no mundo: testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito. Jesus avisa, no entanto, que o caminho do testemunho deparará não será fácil; mas os discípulos contarão com o Espírito: Ele vai ajudá-los e vai lhes dar segurança no meio da perseguição.
O tema fundamental desta leitura tem, portanto, a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo mundo.  Jesus começa por dizer aos discípulos que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento. As palavras de Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à “parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade e no coração de cada crente; além disso, o Espírito ensinar-vos-á a entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.
Aonde irá o Espírito buscar essa verdade que vai transmitir continuamente aos discípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – vers. 14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.
A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por acção do Espírito.

Os cristãos precisavam de algum modo encontrar uma expressão que pudesse sintetizar tudo o que Jesus dizia sobre Deus. E isso demorou mais  de trezentos anos depois da morte de Jesus, quando os fieis conseguiram encontrar uma palavra que expressasse aquilo que haviam entendido sobre Deus e que lhes fora transmitido por Jesus.  Como se pode pretender reduzir aos conceitos humanos a imensidão do conceito de Deus, algo que supera infinitamente a linguagem humana? Foi assim que nasceu a palavra Trindade.

            Para nos auxiliar nessa compreensão temos de olhar para Jesus. Ele chamava a Deus de “Pai” mas num sentido muito diferente da maneira de um hebreu invocar Deus. O hebreu se dirigia a Deus chamando-O de “pai” reconhecendo Nele a origem do povo de Israel. Nunca se pressupunha que Deus tivesse uma relação semelhante à de um homem com seu filho!  Que era justamente a forma que Jesus chamava Deus (Ab-bá=Pai) e com isso indicando que entre Ele e Jahvé existia uma relação específica e única: todos os Evangelhos estão permeados por um diálogo “filial” entre Jesus e Jahvé; diálogo sempre repleto de momentos de alegria, de silêncio, de sintonia, de adesão... um verdadeiro dialogo entre duas pessoas que se colocam uma diante da outra, face a face, no mesmo nível.  Evidentemente este modo de Jesus se dirigir a Deus, atraiu sobre si a acusação de blasfêmia.

Jesus estava encerrando a sua vida junto com os discípulos; as palavras que lemos nas leituras propostas pela Igreja neste período pós pascal fazem parte de um grande estudo sobre o Espírito Santo.  Jesus sabia que os discípulos não teriam as condições de entender nada mais do que aquilo que já Ele havia ensinado. Com certeza por isso O deixaram sozinho depois que Ele foi preso.

Para fazer a vontade de Deus ou aceitá-la, é preciso algo mais do que um desejo genérico ou um sentimento. É necessária uma forte e radical decisão que surge unicamente quando nos sentimos profundamente envolvidos por um grande amor, pois somente o amor pode fazer com que uma pessoa supere seus limites e experimente que as suas forças são maiores de quanto achava de possuir. Não é isto que uma mãe experimenta com seu filho? Pois bem, entendem-se assim as palavras de Jesus o qual alenta os seus discípulos indicando-lhes que o próprio Deus, o mesmo Amor vivo que é relação sem limites e sem barreiras, o mesmo Amor que –por assim dizer- faz continuamente transcender Deus em si mesmo num infinito dinamismo, será este mesmo Amor que os «conduzirá na verdade». Eis, então, o Espírito. Ele nos faz experimentar que somos projetados para o infinito, capazes de transcender e ultrapassar a nós mesmos para poder trilhar o caminho do amor.

Santíssima Trindade!

Um mistério imenso que ultrapassa as nossas concepções humanas e no qual somos convidados a entrar. Durante a semana dediquemos sempre um tempo à oração, à contemplação e, com isso, dar lugar ao silêncio. Dar espaço ao silêncio para que a Trindade ecoe em nós, e deixar-nos  mergulhar no coração deste mistério e um tempo para redirecionar novamente as nossas vidas de batizados.

 

 

 

Sobre a encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI 

 

“Deus é amor; quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele”. A Encíclica se inicia com estas palavras retiradas da primeira carta de João (1 Jo 4, 16). Palavras que exprimem o centro da nossa fé cristã.

A Encíclica é composta por duas partes. A primeira parte oferece uma reflexão teológico-filosófica sobre o «amor» nas suas diversas dimensões - eros, philia, agape – especificando alguns fatos essenciais sobre o amor de Deus pelo homem e a intrínseca ligação que tal amor tem com o ser humano. A Segunda parte trata do exercício concreto do mandamento do amor ao próximo.


Primeira parte

A palavra “amor” tornou-se uma das palavras mais usadas e tantas vezes incorretamente do mundo de hoje, que privilegia, como na antiga Grécia, o amor entre o Homem e a Mulher. Esta forma de amor tinha o nome de EROS.

Na Bíblia, e sobretudo no Novo Testamento, a palavra amor  está mais voltada ao termo ágape, que exprime um amor oblativo. Esta nova visão do amor, uma novidade do Cristianismo, foi considerada como a recusa do eros e da corporeidade. O eros, colocado na natureza do homem pelo seu próprio criador, precisou de disciplina, de purificação e de maturação para não perder a sua dignidade originária e não se degradar em puro «sexo», transformando-se numa mercadoria. A fé cristã sempre considerou o homem como um ser no qual o espírito e matéria se encontram em íntima unidade: corpo e alma devem-se encontrar em perfeita harmonia. Então o amor torna-se «êxtase»; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do “eu” fechado em si mesmo, para a sua libertação no dom de si para o outro e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo e a descoberta de Deus.

Segunda parte

O amor ao próximo, radicado no amor de Deus, é um dever para cada um dos fiéis, e para a comunidade eclesial inteira, que, na sua atividade caritativa, deve sempre viver a experiência do amor trinitário. Na estrutura fundamental da Igreja emerge a «diaconia» como serviço de amor ao próximo, exercido comunitariamente e de forma ordenada. Um serviço concreto, mas ao mesmo tempo também espiritual (cf At 6, 1-6). Com a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais. A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros.

No final do século XIX, contra a atividade caritativa da Igreja é levantada uma objeção fundamental: estaria em contraposição – dizia-se – com a justiça, acabando por agir como sistema de conservação do “status quo”. Com a prática de obras de caridade individuais, a Igreja favorecia a manutenção de um sistema injusto e tornava-o simultaneamente mais suportável, refreando o potencial revolucionário e, conseqüentemente, bloqueando a direção a um mundo melhor. Contrariamente a essa tese marxista, o Magistério Pontifício a começar com a Enciclica Rerum novarum de Leão XIII (1891) e terminando com a trilogia de Encíclicas Sociais de João Paulo II (Laborem exercens [1981], Sollicitudo rei socialis [1987], Centesimus annus [1991]) enfrentaram com crescente insistência a questão social, e no confronto com  situações e problemas sempre novos, desenvolveram uma doutrina social articulada, que propõe orientações válidas muito além das fronteiras eclesiais.

Todavia, a criação de uma ordem justa da sociedade e do Estado é competência central da política, não podendo assim ser encargo imediato da Igreja. A doutrina social católica não pretende conferir à Igreja um poder sobre o Estado, mas simplesmente purificar e iluminar a razão, oferecendo a sua contribuição para a formação da consciência, para que a verdadeira exigência da justiça possa ser apercebida, reconhecida e, depois, também realizada. Um Estado que queira prover a tudo, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal.

No nosso tempo, um positivo efeito colateral da globalização manifesta-se no fato que a solicitude pelo próximo, superando os confins da comunidade nacional, tende a alargar os seus horizontes. A estrutura do Estado e as associações humanitárias favorecem de vários modos a solidariedade da sociedade civil. Na Igreja Católica e noutras Igrejas e Comunidades eclesiais, também apareceram novas formas de atividade caritativa. Entre todas estas entidades deve ser estabelecida uma colaboração frutuosa. Naturalmente é importante que a atividade caritativa da Igreja não perca a sua própria identidade dissolvendo-se numa organização assistencial comum e tornando-se uma simples variante desta, mas mantenha todo o esplendor da essência da caridade cristã e eclesial. Assim:

  • A atividade caritativa cristã, para além da competência profissional, deve basear-se na experiência de um encontro pessoal com Cristo, cujo amor tocou o coração do crente suscitando nele o amor pelo próximo.

  • A atividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. O programa de Jesus  é o programa do bom Samaritano, o programa de um coração que vê onde há um homem que sofre e que necessita de amor.

  • A caridade não deve ser um meio em função daquilo que hoje é referido como proselitismo. O amor é gratuito; não é realizado para alcançar outros fins. Isto, porém, não significa que a ação caritativa deva, por assim dizer, deixar Deus e Cristo de lado. O hino à caridade de S.Paulo (cf 1 Cor 13) deve ser a Magna Carta de todo o serviço eclesial para proteger do risco de se degradar em puro ativismo.

Neste contexto, e face ao secularismo vigente que pode condicionar até muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo, é necessário reafirmar a importância da oração. O contato vivo com Cristo nos remete a consciência dos  limites da ação própria, evitando os perigos de cair numa ideologia que pretende realizar agora,  excluindo Deus do governo do  mundo.  Quem reza não desperdiça o seu tempo, mesmo quando a situação apresenta todas as características duma emergência e parece impelir unicamente para a ação humana. Nem pretende mudar ou corrigir os planos de Deus, mas procura - sob o exemplo de Maria e dos Santos – atingir em Deus a luz e a força do amor que vence toda a obscuridade e egoísmo presente no Mundo.

 

 

Páscoa da Ressurreição 

 

Por: Sérgio Alejandro Ribaric

«No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido tirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos» (Jo. 20,1-19)

            A Quaresma é um período em que voltamos a nossa atenção para o fundamento da nossa fé: caminhar com Jesus. Isso significa passar pelos mesmos caminhos que Ele passou: pela rejeição, pelo sofrimento, fruto da injusta soberba daqueles que detêm um pequeno ou grande poder. Na quaresma voltamos nossos olhos para a missão de Jesus e com isso percorremos com Ele o caminho que cada homem experimenta em sua vida. Viver a semana santa é contemplar e reviver todos os belíssimos ritos tão significativos que nos fazem descobrir “como” viver o caminho de Jesus.

Quando Deus revelou o seu nome a Moisés, o fez nestes termos: «Dirás aos israelitas: “Jahvé” é quem me enviou» (Ex 3,14); nome estranho cujo significado – entre outros - é: “você saberá quem eu sou”. No dia da Páscoa, a vida, paixão e morte de Jesus, nos permite finalmente dizer a Deus: “Sabemos quem é Você! Sabemos quanto Você é fiel, quanto está disposto a dar a cada um de nós; sabemos que nunca nos deixa sem resposta”. Mas no domingo de Páscoa descobrimos que isso só se descobre apenas no fim de um caminho. E essa descoberta faz o homem começar um novo caminho!

O nosso deus é um Deus que se descobre enquanto se caminha com Ele: nunca antes disso e nunca se deixarmos o caminho pela metade. A nossa fé não é uma ideologia ou um sistema de pensamentos morais e éticos, nem sequer uma série de ritos com os quais se pretende elevar o espírito humano. Qualquer religião é um movimento do homem que tenta se aproximar de Deus de um modo ou outro. A fé cristã que professamos é outra coisa: é uma atitude de vida, que vai brotando em nós passo a passo, enquanto se caminha com aquele Jesus que é transmitido na experiência global que os evangelistas nos deixaram. Deste modo a fé se revela como sendo uma “surpresa”, não um projeto. E uma surpresa é o conteúdo do Evangelho de hoje: a surpresa de que Deus é fiel ao homem até o impossível. O impossível experimentado naqueles discípulos e apóstolos amedrontados e desanimados com os acontecimentos da quinta e sexta feira e que vem a Madalena adentrar e falar: “Eu vi o Senhor!”

Madalena, João e Pedro estão diante de um fato. São três maneiras diferentes de se aproximar daquele acontecimento sem o qual a fé cristã se reduz a uma simples filosofia religiosa. Conforme o evangelista João o trecho está cheio de simbolismos, isto porque os sentimentos mais profundos que experimentamos dificilmente conseguimos expressá-los com palavras, pois estas são insuficientes em relação a algo que supera a razão. A primeira figura é Madalena. Ela foi ao túmulo, sozinha. Estava buscando o seu amado, aquele Senhor a quem devia tanto da sua vida. Aquele que, com um gesto de amor lhe havia devolvido a dignidade e a vontade de viver. Foi sozinha: uma solidão que deixava transparecer a dor pessoal, única, própria de qualquer perda. Madalena havia perdido o seu amado, nada poderia confortar seu coração. Em Madalena o evangelista vê aquela dimensão da fé que é o amor apaixonado, singelo; resposta grata e sem limite a um Senhor conhecido como alguém que ama sem julgar. O dela é um amor que une intimamente, é uma fé profundamente humana, forte, carregada, intensa.

Era de uso ungir com perfumes mortuários, como a mirra, os cadáveres. Evidentemente - por questões religiosas - não fora possível dar uma sepultura adequada ao cadáver de Jesus; óbvio seria, como escreveram os outros evangelistas, que Madalena fosse descrita trazendo consigo esses perfumes. Mas não é assim. João enfatiza a descrição na atitude bem diferente: sem nada nas mãos. Ela não tem mais nada, só tem na mente e no coração o vazio, o vazio de uma perda, de uma dor que a impede de ficar quieta, sem casa.....

Para ela e para toda a comunidade, ainda é “quase dia”, porque ninguém havia levado a sério as palavras do Senhor em Betânia (Jo 12,3s), quando a irmã de Lázaro ungira Jesus com perfume. Naquela ocasião, quando Judas considerou um desperdício usar aquele caríssimo perfume, Jesus disse a ele e à comunidade reunida: «Deixem que faça! Que ela guarde isto para o dia da minha sepultura» (Jo12,7). Ele não falou de “morte” e sim de “sepultura”, e ainda: o perfume citado (“nardo”) era usado para o matrimônio, nunca para um defunto!

            Eis, então a lógica da narração: a Páscoa é para o evangelista, o matrimônio definitivo, matrimônio de vida sem fim entre o amado e a amada, entre o Senhor e a sua comunidade de fé. Matrimônio de fusão vivificante para a inteira humanidade; lugar onde a comunidade de fé e o Senhor são uma só coisa, para a vida do mundo, para a vida daqueles que ainda não conseguiram “ver” e conhecer o verdadeiro rosto de Deus. É isso que o evangelista entende da experiência daquele dia.

A Páscoa de Jesus era a superação e a ruptura de todos os limites, para que o Senhor pudesse continuar agindo no mundo, não mais limitado pelo espaço e tempo, mas através da comunhão entre Ele e a sua comunidade. Através desse amor fecundo que somente pode ser comparado a um matrimônio, matrimônio eterno entre Ele e a sua comunidade de fé, o Senhor permanecerá agindo e salvando todo e cada homem, até o último.

            Um curioso detalhe nos faz penetrar inda mais na compreensão que João teve do acontecimento: quando “entrou, viu e acreditou”. O que ele viu, foi um túmulo vazio, lençóis e faixas. Para indicar o pano com o qual foi envolvido o cadáver de Jesus, o evangelista João usou um termo nada comum para um defunto. O pano é chamado “lençol”, ora, o substantivo com o qual é indicado o “lençol” não é um pano qualquer, mas indica o conjunto dos lençóis de linho usados na primeira noite de núpcias (cfr. Jz 14,13 e Os 2,7-11), lençóis perfumados com aloés e cássia. Não era uma comum mortalha! A “morte” sequer chegou perto de Jesus, pois Ele era a vida. Morte é distância de Deus, vida é comunhão com Ele.

            Em toda a narração pode-se intuir o sentimento que João tinha em seu coração naquele dia. Pedro e João, os dois, saíram correndo juntos. De repente, João não se importou mais com Pedro, foi por sua conta, já que era mais rápido. Percebe-se, aqui, quase uma pequena revanche contra Pedro, contra aquele que havia traído o Senhor, que sequer se atreveu a entrar no pátio do Sinédrio, que tivera medo da palavra de uma serva (Mt 26,69) - palavra que, por sinal, não tinha algum valor jurídico. Naquele arranque de João, que deixava Pedro para trás, estava escondida toda a reação do discípulo que, sozinho, havia seguido Jesus até debaixo da cruz, onde ninguém se atreveu a chegar a não ser as mulheres, pois elas não seriam atingidas pela reação dos judeus… mas os Apóstolos sim. No entanto, a narração nos faz sentir uma grande pausa: de repente João deixava de lado suas rixas pessoais, sua justa razão contra Pedro e até o seu impulso pelo grande amor com o Senhor que o induziria a chegar por primeiro; assim, num profundo gesto de reconciliação e de paz, de confiança e amizade, parou… e deixou entrar aquele Pescador em que o Senhor havia depositado toda a sua confiança.

Tudo passa para o segundo plano quando o centro é Jesus; tudo é secundário, até as nossas razões, o caráter, os pontos de vista. Tudo encontra solução quando o centro é Jesus. Eis a comunidade de fé que “vê” o que aos outros aparece somente como um “túmulo vazio”. Essa profunda comunhão, que supera as questões pessoais, por mais justas que sejam, é a condição básica para que se realize também o “matrimônio” fecundo do Senhor com a sua comunidade de fé, para que «o mundo tenha a vida e a tenha em abundância» (Jo. 10,10).      “Eu vi o Senhor!”